O que significa ser emigrante

Neste primeiro aniversário do The Ocean in Depth, e a propósito da carta escrita por Mário Gonçalves, que dirige aos emigrantes Portugueses e que tão bem ilustra a realidade acerca do que significa ser emigrante, faço esta reflexão.

O autor começa por dar a conhecer a realidade miserável que se vive no nosso país e que assim persiste desde há muito tempo. É triste, para mim, ver um país com tanto potencial neste estado. Desde o clima maravilhoso até à simpatia da sua população, estendendo-se até uma língua tão poderosa e sublime, tem uma riqueza que nenhum outro país tem. Sim, Portugal pode ser pequeno em dimensão, mas é grande em talento. Temos jovens ultra qualificados, que o anterior primeiro-ministro erroneamente convidou a emigrar, e os mais velhos possuem a mágica sabedoria que tanto nos ensina. Pois é, talvez ele se tivesse esquecido que estaria a convidar a sair a geração mais qualificada até hoje! Tratam-se de jovens com ideias, inspirados por uma onda de inovação, com um potencial enorme que irão investir noutros países, quando o poderiam fazer em Portugal, se ao menos existissem incentivos para eles…

O desenrascanço continua a ser uma virtude Portuguesa, e as pessoas conseguem, de uma misteriosa forma, sobreviver mesmo em contextos dificílimos. Não que isto seja bom. De todo. No entanto, mostra como o nosso povo tem a admirável capacidade de se adaptar a uma variedade incrível de contextos – e por isso consegue adaptar-se a outros países quando emigra.

Mário Gonçalves prossegue a sua carta com uma compreensão verdadeira acerca do que é realmente estar fora do país. Menciona o que é estar longe daqueles que amamos, a trabalhar arduamente para ter uma vida melhor, adaptando-se a um país estranho, por vezes onde somos discriminados. E, muito bem, refere que quem fica em Portugal pensa que estamos a “viver uma vida de sonho”, quando na realidade não sabem o quanto sofremos por estar longe, o quanto estamos agarrados ao telemóvel com saudades daqueles que deixámos. A este propósito, o autor pintou o cenário tal qual ele é – e eu própria já fiz uma reflexão acerca deste tema, Estar Longe (18.02.2018). A vida que um emigrante vive no estrangeiro não é cor-de-rosa, não é a “vida de sonho” que tantas pessoas imaginam. Estamos longe daqueles que amamos. Sabem o que isto é? Isto significa que não posso ligar à minha irmã e convidá-la para almoçar. Significa que não posso ligar à Ana ou ao Daniel para combinar um café. Não posso. Não é possível. Estou a milhares de quilómetros de distância, e a aplicação que tantas vezes me tem feito o coração sorrir é o WhatsApp! O WhatsApp! Mesmo quem reside em Portugal e utiliza o WhatsApp, pode combinar uma saída com os amigos, um jantar com os familiares. Eu não. Os emigrantes não. Os emigrantes trabalham horas a fio, tantas vezes horas extra para conseguir pagar as contas, e têm de marcar férias e voos com antecedência, para conseguir um encontro, uma reunião. Nada pode ser feito em cima da hora, tudo tem de ser planeado. E, claro, mesmo acompanhados, estamos muitas vezes sozinhos. Se um problema acontecer com o meu carro, não posso ligar ao meu Pai, ao meu querido Pai, e pedir que me venha ajudar. Não posso abraçar os meus Avós à distância. Não posso acompanhar ao vivo o crescimento das crianças da minha família. E isto é muito triste. Eu sei que, mesmo em Portugal, as pessoas têm vidas extremamente ocupadas, e que tantas vezes é difícil encontrarem-se. Mas estar fisicamente longe é bem mais difícil. A saudade é um sentimento muito difícil de carregar, e eu sei que os emigrantes conhecem-na bem, bem demais.

O autor continua afirmando que existem mais pessoas a querer emigrar, pois as condições no nosso país são más, não há trabalho, não há dinheiro, e os governantes nada fazem para melhorar a situação. Aconselha os emigrantes a ficarem no país que os acolheu, porque estamos melhor que muitas pessoas em Portugal. Prossegue dizendo que o melhor é ficar e não regressar a menos que mudemos a situação do país. E, para mim, este ponto é fulcral. Na minha perspectiva, os emigrantes, pessoas com uma admirável coragem e capacidade de adaptação ao desconhecido, tiveram uma educação exemplar em Portugal. (Agora que vivo em Inglaterra, e que estudei e ensinei cá, posso dizer com toda a franqueza que o ensino em Portugal, com todas as suas lacunas, é cem vezes melhor do que este de cá!) Após estudarem e não conseguirem arranjar trabalho nas suas áreas, partem para outros países onde as suas áreas são mais exploradas e desenvolvidas. Após alguns anos de aprendizagem dos métodos utilizados por outros países, conhecendo pessoas com abordagens diferentes, ganham conhecimentos teóricos e práticos extremamente úteis para o seu desenvolvimento profissional. E, como Apelo, peço a estes emigrantes que brilhantemente evoluíram, que voltem para Portugal e preencham as lacunas que existem no nosso País! Peço-vos que desenvolvam um país que não sabe o que fazer. Tu, que viveste outras realidades, que experienciaste tantas situações, provoca uma mudança revolucionária em Portugal! Eu quero fazer o mesmo, tenho projectos em mente que quero mais tarde desenvolver no meu país, preencher as lacunas que tem. Quero porque acredito em Portugal!

Mário Gonçalves termina afirmando que o nosso país está cansado, que não tem a mesma força que tinha há séculos atrás, “o povo lusitano”. Realça que as pessoas se conformam com a realidade em que vivem, que estão a atingir o limite. E tem muita razão no que diz, infelizmente esta é a realidade neste momento. E é muito triste pensar que um povo se tornou assim após ter feito Descobertas pioneiras séculos antes. Pois eu digo que retomemos esse espírito de curiosidade, de vontade de ir mais além, de fazer mais e melhor, com uma energia que surpreenderá quem está de fora!

Uma realidade que mistura muitas emoções, esta que vivem os nacionais e os emigrantes. Muito obrigada, Mário Gonçalves, pela sua carta tão profundamente sincera, repleta de um sentimento intenso de desilusão e dor. Enquanto emigrante, quero mudar esta situação. Emigrantes, apelo à necessidade de mudança daquela que é a nossa casa!

Elisabete Martins de Oliveira
11.01.2019

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Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.