Quem abandona animais, abandona pessoas

         Parte-me o coração. Vejo os cães, perdidos, o olhar disperso, o nariz na procura incessante de um odor familiar, as patinhas irrequietas, tão assustados com qualquer súbito movimento ou ruído, a magreza tão visível que podemos ver as costelas através do pêlo.

         Isto acontece em Portugal. E magoa-me tanto que, por vezes, choro por ver estes animais com tanto coração serem deixados à sua sorte no desconhecido. E tu, como te sentirias, se os teus pais te largassem no meio do bosque, à chuva, ou numa cidade que te é completamente desconhecida, sem referências, sem família, sem apoio? Isto é o que eles sentem. Eles têm coração, sentem, amam incondicionalmente quem cuida deles, agradecem com aquele abraço improvisado ou aquela patita que se une à tua mão, numa fantástica linguagem corporal inter-espécie.

         Há muitos anos atrás, encontrei uma cachorra linda no cimo da minha rua, em Portugal. Era uma rafeira com um pêlo preto, risca branca na cabeça, patitas brancas e cauda preta com ponta branca, como um pincel. Tinha eu nove ou dez anos, e trouxe-a para casa. Chamava-se Rita, de acordo com o que as pessoas diziam na rua. Eu adoptei a Rita, quis mudar-lhe o nome para Daisy, mas o nome dela era e sempre foi Rita. Foi uma amizade imediata, aquela que formámos. Foram aventuras em que ambas percorremos lugares por descobrir, lado a lado, como irmãs. Ela protegia-me, acarinhava-me sentando-se ao meu lado e estendendo-me a patinha amiga. Nunca me hei de esquecer que chorei a seu lado, a abracei, e que ela me reconfortou, que adormeceu no meu colo, já adulta, que brincava comigo mesmo quando já não tinha força nas patinhas.

         Vim para Inglaterra, despedi-me da Rita com o maior abraço que lhe dei, de lágrimas incessantes nos olhos. Custou-me tanto que levei um aperto no coração comigo. No dia anterior a viajar de volta para Portugal, para a visita do Natal, recebi a notícia de que a Rita tinha morrido. O meu coração parou, e chorei nesse dia e no dia a seguir, enquanto conduzia em direcção ao estupor de trabalho que tinha na altura como professora assistente. A minha viagem para casa foi a mais triste que tive. Cheguei a casa e aquele vazio, aquele silêncio, a ausência da festa que ela fazia sempre que eu chegava a casa sufocavam-me e deixavam-me presa na memória, na melancolia, nos “e se…?”.

         Não há nada que eu não fizesse para ter a minha Ritinha de volta. Sinto falta do seu sorriso, do seu amor incondicional, genuíno, do seu abraço reconfortante.

        E, no entanto, há quem abandone estes seres magníficos, tão mais puros que os seres humanos. Há quem tenha crueldade no sangue, sangue frio que não sente, para percorrer quilómetros e quilómetros para os deixar à sua sorte. Não importa as razões, este é um acto premeditado. Há alternativas. O abandono não é uma delas. No fundo, eu comparo quem abandona cães a pessoas que abandonam os filhos, ou os companheiros em situações críticas ou em circunstâncias em que, perante uma vida melhor, abandonam quem tanto deles cuidou e amou. São monstros. Eu não consigo ver alma numa pessoa que abandona. O cão não abandona, então por que é que o humano o faz?

 

Elisabete Martins de Oliveira
28.08.2019

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

2 thoughts on “Quem abandona animais, abandona pessoas

  1. Olá, Sara! Obrigada pelo teu comentário, que é uma excelente reflexão!
    Fico muito contente por saber que adoptaste uma gata adulta, e que teceram uma amizade que agora vos torna inseparáveis. É essa amizade que liga espécies, e que dá tanta cor à nossa vida! A Mia está junto de ti porque se sente confortável a teu lado, porque tem confiança em ti. É por isso que não consigo compreender como é que seres humanos têm a coragem de, após estabelecer a confiança com o seu animal de estimação, após ter formado uma relação com ele, abandoná-lo. Não compreendo. Eu sei que a maior parte das pessoas não o faz, e há tanta gente que tem cães ou gatos mesmo não tendo as melhores condições para eles…
    Eu sei que vais cuidar muito bem da tua Mia! Eu cuidei da minha Ritinha, e tenho muitas saudades dela – muitas, mesmo, mas guardo no meu coração o seu amor incondicional e todos os bons momentos que tivemos.
    Espero que adoptes um cão um dia! É o meu objectivo também. 🙂

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  2. Emocionei-me com este post porque realmente dói pensar como é que é possível alguém praticar tais atos? Acho que até para quem não tem animais de estimação dói e corrói por dentro pensar nisso, desde que se tenha bom caráter e, no mínimo, um pingo de sensibilidade.
    Eu embora sempre tenha preferido cães, tenho neste momento uma gata muito querida, a Mia. Quando a adotei, já adulta (com um ano e meio), no início foi complicado; eu nunca tinha tido um e não sabia nada sobre gatos e, por incrível que pareça, estávamos com medo uma da outra! Ela assanhada com medo de mim, por estar num meio totalmente novo e diferente, com pessoas diferentes das que estava habituada e eu, com medo que ela tivesse algum vaipe e me magoasse! Felizmente acabou por correr tudo bem. Fomos, paulatinamente, estabelecendo uma relação cada vez mais confiante e hoje já não passamos uma sem a outra, é uma grande amiga e companheira que aqui tenho. É a minha gata gordinha (nome carinhoso porque, na verdade, não é gorda), dorminhoca, sociável, “chata”, que mia sem parar e se enrola nas minhas pernas a pedir mimos sempre que chego a casa, após me ter ausentado – mesmo que por pouco tempo –, e que me faz muita companhia. Portanto, no fim de contas, custa-me crer que após se estabelecer uma relação destas, existam pessoas que consigam ter a coragem de agir sem escrúpulos e abandonar os seus animais de estimação, sejam eles cães, gatos, o que for. Ora porque eram bebés e entretanto cresceram e perderam a “piada”, ora porque não dá jeito nas férias ou ausências… Há que cuidar e estimá-los sempre, independentemente da sua idade e há sempre alguém disponível para cuidar deles na férias/ausências. Não há desculpa para tais atos.
    Não imagino a tua dor ao emigrar e não ter outra hipótese se não ter de deixar a tua Rita para trás… E muito menos estar longe e receber a notícia de que ela já tinha morrido… Agora, ficarás para sempre com as boas memórias dela no teu coração.
    Creio que um dia ainda hei de adotar um cão/cadela. Sempre adorei cães e nunca tive um, contudo, conheço bem a sua lealdade, alegria, gratidão e amor incondicional para com os seus donos, aspetos que diferem realmente nos gatos (que também conseguem demonstrar amor e gratidão à sua maneira).

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