Um acto de altruísmo

Já cheira a Natal. No ar, vagueiam vários cheiros familiares – o bacalhau com batata cozida, ovo e grão, as filhoses, as fatias douradas deliciosas, a broa sobre a mesa, os sonhos e os chocolates a perder de vista. E, ainda mais do que os odores, as vozes circulam no ar – a dos avós, dos tios, dos pais, dos irmãos e dos primos, que correm incansavelmente pela sala. Ah, as vozes da família reunida.

Olho para ti, tão feliz por estares em casa dos teus avós, que te mimam mesmo quando eu lhes digo para não o fazerem. Aproximas-te da grande árvore de Natal enfeitada e repleta de luzes, que te deixam encantado. Ris com os teus primos, abanam uns presentes às escondidas e tentas adivinhar para quem é, porque ainda não sabes ler. Estás tão feliz! Vejo os teus dentinhos e bochechas redondas e vermelhas de tanta gargalhada, envergando uma camisola vermelha com um ursinho e calças de bombazina.

Corres até mim, e pego em ti ao colo, no ar, e tu ris. Olhos nos olhos, do mesmo castanho brilhante, sorriso com sorriso. Aproximo-te de mim e dou-te um abraço caloroso. Nada mais no mundo me preenche senão tu, a tua inocência, o teu sorriso, que me faz ter esperança no mundo.

Se é que ainda resta alguma.

Sorris para mim e voltas à brincadeira, a correr de um lado para o outro enquanto o jantar não é servido. Conversas com os teus tios e com os teus avós, que te fazem perguntas às quais ainda não sabes responder – eles não conhecem tão bem quanto eu.

Lá fora, a temperatura é negativa e, com a tua curiosidade, abres um pouco a janela e esticas o teu dedinho lá para fora, que retiras rapidamente, porque sentiste algo.

— Está a nevar! — dizes, na tua voz terna — Está a nevar lá fora!

O teu entusiasmo faz-me sorrir. Tudo para ti é tão novo… o Natal está a tornar-se na tua festividade preferida do ano. Eu vejo como te impressionas com as luzes, os presentes, a família toda reunida no mesmo espaço… tudo te faz sorrir.

Para mim, que já vivi esta festividade durante vários anos, não consigo deixar de relembrar todas as coisas obscuras que associo a ela. À mesa, sentados, olho para as pessoas que se encontram à minha volta e esboço um sorriso – forçado.

— A todos nós, que estamos aqui juntos hoje… — diz o teu avô, à cabeça da mesa, de copo erguido na mão — desejo saúde e tudo o que a vida vos possa trazer de melhor.

— Saúde! — dizemos todos, em uníssono, erguendo os nossos copos para o brinde.

— Saúde! — dizes tu, meu pequenino, com o teu copo azul de plástico na mão, e todos se esticam para te brindar, sorrindo.

Olho para o relógio de madeira. As horas passam e aposto que não tens a noção de que já estás a brincar há mais de cinco horas. És incansável. És perfeito. Hoje, vais vencer o sono.

Estás ansioso para abrir os presentes e, quando o relógio toca as doze badaladas, dás um salto vigoroso – talvez o mais alto que deste, mais alto até do que aquele do trampolim – e gritas:

— Presentes! Vamos abrir os presentes!

Abres primeiro o meu, porque to escondi num lugar que jamais irias encontrar. Todos os dias me perguntaste onde o tinha escondido, e eu dava-te sempre a mesma resposta: Tens de esperar pelo Pai Natal! Ele não vai gostar de saber que tu te portaste mal, pois não? E tu abanavas a cabeça e regressavas à tua brincadeira.

O teu rosto ilumina-se, e o meu também, por te ver tão alegre. Lanças-te nos meus braços, num abraço tão apertado e carinhoso, e sussurras ao meu ouvido:

— Obrigado, mamã.

Mas tu tens mais presentes com o teu nome escrito – e até bordado – e rasgas o papel de embrulho com a alegria iluminada no teu rosto. Sorrio por ti.

É então que dás o melhor presente em troca – lanças-te nos braços da tua avó, uma mentirosa compulsiva, e do teu avô, um homem sem remorsos por todo o mal que provocou; do teu tio, um hipócrita autêntico, e da tua tia, uma traidora de primeira classe, e… do teu pai, um homem sem escrúpulos, tirano. Lanças-te nos braços do perigo sem te aperceberes. Não os conheces como eu. Não sabes do que são capazes. Mas eu, a quem eles chamam de calculista, sei muito bem o que pretendem uns dos outros – e o que fazem uns aos outros para atingirem os seus objectivos. Não passam de uns interesseiros.

E, no entanto, eu vejo-te assim, entregue ao espírito de Natal, envolto em amor, quem sabe falso, e sinto um nó na garganta. Contemplo o teu rosto de feições delicadas, o teu cabelo castanho encaracolado, os teus olhos redondos e meigos, e só desejo que não sejas como eles. Ou como eu. Quero que sejas melhor. Quero que encontres dentro de ti o teu potencial e afastes as vozes de quem quer apenas o benefício próprio. Quero que encares a vida como um sonho a concretizar. E que tenhas sempre esse sorriso encantador, que o mostres sempre ao longo da tua vida – que não o reserves apenas para alturas como este.

Os arrepios sobem-me pela espinha sempre que te vejo envolto nos braços destes que são os teus familiares, aqueles que fazem parte da tua vida. Sustenho a respiração perante o beijo na bochecha, as cócegas, o abraço. Uma parte de mim desmorona-se quando a tua inocência se defronta com esta crueldade. Mas uma coisa é certa, meu amor: jamais te poderei retirar isto. Esta é a tua família, quer o meu egoísmo aceite ou não. És feliz aqui. E eu nada posso fazer acerca disso. Por isso, eu sorrio.

 

Elisabete Martins de Oliveira

23.12.219

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

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