O que podemos aprender com esta pandemia?

Vivemos num período de grande incerteza. Um período cujo fim desconhecemos. Que nos causa medo, um medo semelhante ao que se sente na guerra, quando não sabemos quando o terror vai acabar – quantas pessoas vão morrer, e se ou quantas dessas são nossas queridas.

O medo sente-se – nas casas, nas ruas, nos hospitais. Propaga-se por toda a parte, como o fumo após um incêndio, e insiste em permanecer. E é em instantes como este que o ser humano, possuído pela incerteza do amanhã, entra no seu modo instintivo de sobrevivência. Vai à procura dos recursos necessários para se manter durante época incerta, criando reservas, tal como os animais quando se preparam para hibernar.

Nos supermercados, as prateleiras estão vazias. Há corredores inteiros que apenas expõem as prateleiras brancas, iluminadas por lâmpadas incandescentes. Entro e só me apetece chorar, gritar a plenos pulmões. Sinto um vazio enorme, e olho em redor, para as poucas pessoas que lá estão, e olho para elas como que a pedir ajuda. Eu também sinto medo pelo que está para vir – e isso acentua-se com a escassez de recursos.

Penso nas pessoas mais frágeis do que eu – nos idosos, nas pessoas doentes, ou com perturbações mentais. O que fazem nesta situação? Eu posso pegar no carro e percorrer quilómetros até encontrar comida. Posso literalmente passar o dia a procurar comida, como se fosse um predador aguardando pacientemente por uma presa, mas e então e estas pessoas? Que sentem dores, que não se conseguem agachar nas prateleiras, que não têm forma de se deslocar a outros lugares? Morrem?

É claro que o ser humano, no seu estado de pânico, pensa na sua própria sobrevivência e na da sua família. Não se importa se outros sobrevivem ou não – ao passo que se concentra em preservar a espécie, ele também elege a sua prole como soberana perante outras. E isto, visto da perspectiva da preservação da espécie, faz sentido. No entanto, o ser humano, que é, tendencialmente, tão empático perante as realidades desfavorecidas de outras pessoas, e se sente compelido a ajudar, parece comportar-se agora como os animais selvagens – pensando apenas em si mesmo, um egoísmo que emerge à superfície perante um cenário dúbio.

Perante esta circunstância, as pessoas acumulam nas suas casas reservas para tempos de incerteza, que vão repondo ao longo do tempo. Sim, é natural que queiram preservar as suas famílias, mas outras, quem sabe, morrerão por falta de recursos. Quão irónico era, quando tudo isto passar, descobrir uma despensa cheia de comida numa casa e, na do lado, uma pessoa desnutrida ou moribunda?

Claro que todos se vão defender dizendo que cada um faz a sua parte, preservando a própria família. E eu sei que aquelas pessoas vão conservar os seus recursos muito para além de tudo isto terminar. O seu pânico conduzirá a uma sobre-acumulação de comida e – ironicamente – papel higiénico.

Confesso que, até hoje, ainda não compreendi o pânico das pessoas em relação ao papel higiénico. Afinal, para quê trazer seis pacotes com 24 rolos cada para casa? Mas quantos anos é que isso dura? Alguém me explica? Graças a esta situação, vemos pessoas a empurrar-se e a lutar em plenos supermercados – é vergonhoso e altamente reprimível, minha gente.

E, em consequência, os supermercados começaram a racionar a quantidade que cada pessoa leva, – medida que felicito e encorajo – evitando que as pessoas (agora vou usar a palavra do ano 2020) açambarquem tudo o que seja recursos de primeira necessidade e alimentos de longa duração.

Por falar em artigos de primeira necessidade, não esqueçamos o álcool. Ah, o álcool-gel e os frascos de álcool, talvez os produtos mais valiosos nos momentos de hoje – a seguir, claro, ao papel higiénico, produto que agora simboliza a ostentação de uma pessoa – que esgotam antes de os vermos ser postos na prateleira, diante dos nossos olhos. Que são roubados dos hospitais – sim, já vi até letreiros que pedem para as pessoas não os roubarem – e que existem em muita abundância, estou certa, em determinadas casas onde as pessoas se adiantaram e, uma vez mais, açambarcaram antes de os frascos esgotarem ou subirem astronomicamente de preço, qual inflação do século. Não há álcool. Não há desinfectante. Em lado nenhum! Eu tenho um pequeno frasco que me tinha sido dado por uma escola quando trabalhei com um menino que se babava. Mas o meu desinfectante resume-se a isto. Caramba, nem sabonete antibacteriano existe!

Preciso de respirar. Sinto a cabeça quente, a ferver, e ainda preciso de dizer mais. Vou abrandar reflectindo acerca do esforço que os profissionais de saúde estão a fazer por nós, levantando-se de manhã para combater uma pandemia cujo fim desconhecem. Que salvam vidas. Que proporcionam ventiladores para as pessoas que sofrem, que sentem os seus pulmões fechados e uma inacreditável dificuldade em respirar – como eu já senti, quando tive uma infecção respiratória, onde cada inspiração e expiração eram dolorosas e quase conscientes. Que lutam diariamente e trabalham por turnos tão exigentes. Que são o milagre de um país em estado de emergência.

Mas, ahhhhh!!! O gajo do Whatsapp! O médico do Whatsapp! O alarmista parvo que está com medinho de ir trabalhar depois de ter visto o raio-x dos pulmões de uma jovem infectada com o Covid-19. Que entra em pânico e põe toda a gente em pânico, porque se diz médico e faz com que ganhe automaticamente uma autoridade perante a população.

Isto irrita-me. Não gosto de alarmismos – nunca gostei. Numa altura como esta, em que é essencial manter a calma, há pessoas – essas, que deviam ser as primeiras a mostrar a importância de estarmos tranquilos e de não entrarmos em pânico – que se dedicam a espalhar o medo. Como uma peste. Como um louco que anda na rua a anunciar o apocalipse. Tenham juízo, por favor!

Quando há informação fidedigna a ser passada pelas instituições responsáveis pelo ramo da saúde, as notícias falsas e alarmismos tornam-se escusados. Tanto a Organização Mundial de Saúde como a Direcção-Geral da Saúde, em Portugal, transmitem informação verdadeira e fazem-no com prontidão e transparência. Não há mortes escondidas por aí, como se diz. As mortes são anunciadas em público, por muito doloroso que isto seja, e isto é feito como parte da transparência de um órgão como este.

É em alturas de grandes escândalos e alarmismos que as notícias falsas se propagam, tal como o vírus. E, perante o pânico das pessoas, a capacidade de discernimento decresce a pique. O medo faz-nos vacilar como uma pena ao vento e pensar no pior cenário. É aqui que o pensamento crítico deve entrar, majestoso, e prevenir-nos de nos preocuparmos em demasia com cenários que nada favoráveis são para a nossa saúde mental – porque, essa, é muito importante. Mais do que possamos imaginar.

Vamos isolar-nos em casa. Passar dias inteiros confinados ao mesmo espaço. Sozinhos ou acompanhados. Com pessoas de quem gostamos ou não. Longe de quem amamos, muitas vezes, para os protegermos. E este isolamento vai ter um impacto muito significativo na nossa saúde mental – a tensão pode aumentar e, como diz o provérbio Português, “Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão” (embora, por vezes, haja pão, mas também discussão). Vamos passar muito tempo com as nossas famílias, e as discórdias podem aumentar. Nestes instantes, é importante, sempre que possível, mantermos os nossos momentos sozinhos, onde nos dedicamos a fazer coisas de que gostamos, alternando com momentos em família em que se partilhem boas memórias – pois tudo vai passar!

 Muitas pessoas vão trabalhar a partir de casa – e eu espero que, após tudo isto passar, as pessoas se apercebam das vantagens do teletrabalho! Trabalhar a partir de casa é excelente – digo-o por experiência. Desde que comecei a trabalhar por conta própria, não me preocupei mais com horários, nem em me levantar ridiculamente mais cedo para chegar ao trabalho a tempo, nem com o stress do trânsito, nem com o cansaço excessivo que a correria do dia-a-dia me provocava. Para além disso, o teletrabalho reduz significativamente a poluição – ao não usarmos tanto o carro, não poluímos tanto o nosso Planeta, nem poluímos a nossa mente com a ansiedade constante de chegar a tempo. Mas estas são apenas algumas das vantagens. Cada pessoa encontrará as suas.

Vivemos em tempos de incerteza, sim. O cenário não é o mais favorável – o egoísmo é visível, e os alarmismos propagam-se como o próprio Coronavírus. No entanto, este é um momento de reflexão. Um momento de abrandamento, talvez de paragem. Um momento para valorizarmos as pessoas de quem gostamos, mais do que nunca – de passarmos tempo de qualidade com as nossas famílias, quando vivemos com elas; de ligarmos às pessoas com quem não conversávamos há tanto tempo; de ler o livro que abandonámos na prateleira; de ver a série que ficou a meio; de fazer limpezas e reorganizações nas nossas casas; de brincarmos com as crianças; de jogarmos jogos para nos distrairmos; de repensarmos as nossas vidas; de planearmos os momentos de reunião – imaginar os abraços, os sorrisos, os beijos, as gargalhadas, as conversas. Há tempo para tudo isto. E muito mais.

 Estamos juntos nesta luta. Este momento de reflexão faz o altruísmo florescer – eu quero acreditar que sim – e traz-nos o receio, sim, mas também a esperança de um amanhã melhor. Este é um alerta de que temos de repensar as nossas vidas, o nosso mundo. E esta é talvez a maior lição que podemos retirar deste momento de incerteza. Respira fundo. Vai ficar tudo bem.

 

Elisabete Martins de Oliveira

25.03.2020

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

4 thoughts on “O que podemos aprender com esta pandemia?

  1. Obrigada, José Santos, pelo comentário! Por norma, o ser humano é altruísta por natureza, mas acredito que o pânico desfaça intenções que o façam pensar nos outros para se centrar em si mesmo. É a sua sobrevivência que está em jogo.
    Claro, todos nós pensamos na nossa vida e em como podemos viver melhor – são apenas as situações de ameaça que colocam a morte em perspectiva, o que pode gerar ansiedade.
    O importante é que não nos esqueçamos de que esta situação, embora incerta, vai passar! 🙂

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  2. O ser humano é porventura o animal mais egoísta de todos, com a particularidade de ser inteligente e, por isso, algum altruísmo será mais por educação do por característica genética, mas mesmo assim arrasta consigo muito cinismo.
    Quanto ao medo de morrer, julgo que uma boa percentagem de pessoas pensará mais na forma como vive do que quando vai morrer visto ser um condição sine qua non de todo o ser vivo.

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  3. Obrigada, Pai! 🙂 É em alturas como esta que o ser humano “regressa” à sua forma mais básica – a da sobrevivência. Tudo o que adquiriu ao longo do tempo apenas serve o propósito de viver cada dia. Em alturas como esta, somos todos iguais – em termos de estatuto, raça, etnia, religião, crença política e género – e somos igualmente vulneráveis. Este é um tempo de grande reflexão e renovaç
    ao pessoal e societal!

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  4. Resumidamente, sem entrar em grandes delongas, é nestas alturas que aquilo que muitas pessoas dão como adquirido, seja a sua pseudoposição social ou o tal “bom partido”, que sempre viveu de “esquemas” ligados à especulação, seja ela profissional ou política, começam a pensar que talvez aquelas pessoas mais “humildes”, sejam como na saga Mad Max, os verdadeiros sobreviventes e professores com os quais teremos que aprender a lição!

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