Para que estudamos tanto?

Um dia, é uma criança com um sonho. O sonho de ser veterinário, futebolista, cantor ou bombeiro. Num outro, é um pré-adolescente no 9º ano que tem de tomar a tão grande decisão de escolher o curso do Secundário: deve optar por um curso científico-humanístico, como Ciências e Tecnologias ou Economia, ou por um curso profissional, como o curso de Técnico de Gestão Informática ou Multimédia? Qual será o mais interessante? Qual será o menos aborrecido, visto estar farto das aulas do Básico e da carga horária traumática? Ainda num outro dia, é o adolescente que tem de fazer uma escolha maior do que a que fizera há três anos: escolher ir para a universidade ou ir trabalhar?

E aqui começa a história. Se opta por ir trabalhar, depara-se com um mercado dominado por licenciados, mestres e até doutorados, pelo que se decidirá por funções de nível mais baixo, sem que a essas lhes seja retirado o merecido mérito. Dispõe de opções como ir trabalhar para as obras, para uma loja ou para um supermercado – ou trabalhar com aquele tio que tem uma carpintaria ou uma empresa de mudanças. E, com sorte, poderá amealhar o dinheiro que recebe e construir o seu futuro.

Mas este futuro parece-lhe incerto. Por isso, decide-se a ir para a universidade. E, neste instante, a escolha que fez três anos antes vai ter o seu peso, uma vez que determina o tipo de disciplinas e exames a que tem acesso e que lhe permitem entrar no curso que quer. Nesta altura, porém, a diversidade das escolhas deixa-o confuso, as médias atormentam-no como se abutres o sobrevoassem, e a competição deixa-o à beira de um esgotamento. Não sabe bem o que quer fazer da sua vida, se quer tirar uma licenciatura em Gestão ou em Marketing; se prefere Engenharia a Medicina; se deveria estudar Música. A oferta é interminável, as oportunidades espalhando-se por Portugal e pelas ilhas, os preços dos cursos variam de universidade privada para pública.

Num acto de desespero, o jovem volta-se para os colegas para perceber quais serão os seus planos e se ele é o único que se sente tão confuso como nunca se sentiu antes. Para dificultar ainda mais esta decisão, os colegas, com percursos diferentes no ensino secundário, falam-lhe de áreas que despertam o seu interesse: Psicologia, Direito, Comunicação Social, Relações Internacionais… tudo agora parece ainda mais desfocado do que dantes. Como é que não pensara nestas áreas?

E, claro, para qualquer área para onde vá, tem de pensar também nos exames de ingresso, que podem não ser as mesmas que realizou no final de cada ano – e, aí, terá de estudar o dobro daqueles que tiveram a disciplina e a orientação de um professor. E na sua média final, que deve ser razoável se quer assegurar uma cadeira no Auditório principal do Edifício 1. Os pré-requisitos, o stress dos exames, as segundas-fases e os prazos de inscrição surgem diante de si como um furacão. O jovem respira então fundo. Vai procurar transparecer uma imagem de confiança perante os pais, que o pressionam para uma área que dê dinheiro e estabilidade, e esperar que não reparem na nota de desespero que se está prestes a revelar no seu olhar perdido e sem foco.

Vê todos os colegas nomearem as suas áreas de eleição, embora com um toque de hesitação entre uma e outra, e ele sem uma conclusão. Sente o seu coração acelerar, o sangue pulsar-lhe nas veias, a tontura a ameaçar atacá-lo pelas noites mal dormidas.

E, então, toma a decisão de ir para um curso superior na sequência do seu curso do Secundário – é a escolha mais segura, uma vez que mais de 90% da sua turma o decide fazer.

Pelo seu 14 de média do Secundário e pelo 14,3 e 14,6 que obteve nos exames, dispõe de uma boa média e, após semanas de dores de barriga e ataques de pânico, recebe o e-mail de admissão na universidade – não é a primeira opção, é antes a segunda, mas respira fundo e o sangue parece sair todo da sua cabeça, como se estivesse todo acumulado, em tensão.

A primeira semana da universidade é dura e divertida, com as praxes. Mas, dia após dia, apercebe-se da carga de trabalhos em que se meteu – desde os relatórios individuais e em grupo às frequências e exames que surripiam horas e horas da sua jovem vida. Lá vai compensando com jantares de curso, saídas à noite, e com a praxe, que até tem a sua graça. Contudo, quando essas diversões acabam, regressa ao trabalho em força, perguntando-se repetidamente como foi capaz de escolher este caminho tão difícil.

Com uma média razoável de 14,5 (já se percebeu a consistência deste jovem ao nível das notas), termina a sua licenciatura com um um último suspiro, esgotado da época de frequências infernal e que o atormentou durante três dolorosos anos. Sente-se realizado com o cumprimento deste ciclo, e a cerimónia de finalistas serviu de confirmação do mesmo.

Está pronto para ingressar no mercado de trabalho. Com uma licenciatura no bolso, candidata-se animadamente a várias posições de trabalho. Até escreve uma carta de apresentação personalizada, destacando as suas melhores qualidades e explicando por que será uma boa adição à equipa. Dias passam-se, semanas também, e a perspectiva de trabalho não se afigura positiva. Por que não obtém respostas? Por que não tem direito a uma oportunidade? Afinal, é jovem, amigável, competente e, de alguma forma, dedicado.

É com uma dor imensa que se apercebe da quantidade abismal de licenciados que se houveram candidatado às mesmas posições que ele. Nem quer acreditar. E é com ainda maior choque que se apercebe de que ter uma licenciatura é banal, é “o prato do dia”, e que, se se quer distinguir, o melhor é estudar mais.

Candidata-se a um mestrado na mesma universidade. Levou o seu tempo a elaborar uma candidatura toda bonitinha, aprazível, que se destaca. E, como tem prioridade por ser interno, ingressa neste novo ciclo.

Mais dois anos. Mais doze meses de sacrifício com mais duas cargas de trabalho adicionais: uma tese e um estágio. Estuda, já no ritmo de quem anda na universidade – isto é, imparável, constante, sem desvios – desta vez com maior afinco. Reduz as saídas à noite e cumpre com sucesso todos os trabalhos e frequências, cumprindo a meta de concluir o mestrado com uma boa nota.

Termina com 14,5 (eu sei, ele é consistente inter-situações), e com um orgulho que lhe enche o peito, sai vitorioso de mais um ciclo doloroso de estudos. Depois de respirar fundo várias vezes, lá se lança novamente ao mercado de trabalho com furor, com um currículo digno de apresentação, com um curso que o distingue dos licenciados no mercado.

Candidata-se a várias posições nas empresas, as suas candidaturas aprimoradas durante estes anos  na universidade, onde aprendeu a estruturar o seu CV e a carta de apresentação adequadamente e com profissionalismo. Está pronto. Tem licenciatura, mestrado, uma tese concluída (a muito custo, altura em que se tornou religioso) e um estágio curricular que correu muito bem.

É com incredulidade que o jovem se depara com as respostas que recebe. Pelo menos recebe algumas… mas as propostas não são de todo animadoras. Estudou 5 anos na universidade e propõem-lhe receber pouco mais de setecentos euros mensais. Então é para isto que andou a estudar? Quantos neurónios queimou?

Para intensificar ainda mais a sua incredulidade, percebe que alguns dos seus colegas de universidade estão a trabalhar, por desespero da ausência de perspectivas, em caixas de supermercado, em lojas, ou a arrumar stock num armazém. Como é isto possível?! Estudaram tantos anos para ganhar o ordenado mínimo… afinal, o que os distingue?

Desiludido com esta realidade, decide candidatar-se a uma bolsa de doutoramento. O processo é exaustivo, a burocracia inacreditavelmente longa e injusta, mas tem de ser. As dores de cabeça surgem impiedosamente, a esperança começa a descer uma longa ravina como uma pedra que rola continuamente até um fim indefinido.

Mas, para sua surpresa, chega a resposta. O seu coração bate tão rápido que lhe custa respirar, os movimentos mecânicos para receber ar no cérebro e não desmaiar. Ao abri-la, sente uma lufada de ar fresco invadi-lo, a alegria a polvilhá-lo com esperança. Ali está a confirmação de que… irá passar os próximos três anos a estudar, a ensinar, e a realizar um projecto científico.

A ideia não lhe parece muito agradável, mas sabe que esta é a única saída. Não se vai sujeitar a receber apenas setecentos euros quando investiu milhares ao longo destes cinco anos. Então, marca presença assídua nas aulas, estuda para as frequências, prepara aulas, algo que julgava nunca ter de fazer, e prepara ainda um projecto maior do que fez em mestrado. O trabalho consome-lhe a cabeça, e desta vez as saídas com os amigos são mais restritas. Fecha-se no seu quarto, e tantas vezes na biblioteca da universidade, a estudar, a preparar aulas, algo que não gosta (pois não gosta de ensinar), a fazer pesquisa, e a contactar instituições para levar o seu projecto de doutoramento avante.

O seu supervisor é até simpático, mas ajuda-o com pouca regularidade. O jovem vê-se muitas vezes só na elaboração de um projecto que não tem sequer certezas de conseguir cumprir.

O prazo vai ficando apertado e, com toda ansiedade, sente que estará à beira de um burnout. Nunca alguém lhe dissera que seria tão difícil.

E, por fim, finda o prazo, e entrega a sua tese de doutoramento, para depois elaborar uma apresentação perante júri. Sente-se esgotado. Não acredita que chegara aquele momento. Conseguira. Conseguira!

O seu esforço não passa despercebido, e alguns professores do departamento congratulam-no pela dedicação e inovação do seu projecto. Oferecem-lhe uma posição na universidade.

O jovem ainda não conseguiu respirar fundo depois destes três anos, ainda se encontra absolutamente exausto. No entanto, decide aceitar. O salário é muito bom e não terá de sair da casa que conhece há já oito anos.

Inicia o seu percurso como Professor Auxiliar e, com algumas aulas dadas, que não correram muito bem, senta-se no seu gabinete e olha pela janela num modo de reflexão. As folhas das árvores abanam suavemente lá fora, a brisa é leve e doce. E ele está ali fechado.

A sós com os seus pensamentos, um escapa-lhe.

Caramba, podia estar a trabalhar com o tio Álvaro na carpintaria… sempre era melhor do que esta pressão toda.

Este jovem, a quem podemos chamar João, Tomás, Rodrigo, bem que podia ser uma rapariga chamada Margarida, Ana, ou Leonor. Este jovem podia muito bem ser qualquer um de nós. Todos já enfrentámos decisões difíceis, mas esta tem de ser a mais difícil em termos académicos durante o nosso percurso desde a pré-adolescência.

Muitas vezes, estudamos tanto para chegarmos à conclusão que aquele emprego com o qual sonhámos não é nada mais do que uma (des)ilusão. E, no entanto, o nosso investimento foi demasiado grande para darmos um passo atrás.

Então, eu pergunto-te, será que é mesmo essa a área que queres seguir? Sabes o que envolve? Sabes quais serão as tuas funções? Aconselha-te com profissionais dessa área, não fiques na escuridão da ilusão! E, sobretudo, não te esqueças da importância da formação, pois irás estar a trabalhar nesta área durante grande parte da tua vida!

 

Elisabete Martins de Oliveira

15.04.2020

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

4 thoughts on “Para que estudamos tanto?

  1. Obrigada pelo teu comentário, Daniela! 🙂
    Esta realidade está demasiado presente na nossa geração. Senti a necessidade de escrever sobre isto. Tens razão, os jovens passam por imensas dificuldades, e o choque com a realidade (vs a ilusão que tinham dela) é avassaladora.
    Obrigada, e um beijinho! 😉

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  2. Que texto incrível, Elisabete! Acho que reflete na perfeição todas as dificuldades que os jovens passam, não todos, mas uma grande parte. As dúvidas, a incerteza, o esforço, o estudar horas a fio, o choque da realidade do mundo do trabalho, as frustrações, mais tarde a desilusão pelas escolhas que fizemos e que nem sempre foram as acertadas…
    Gostei mesmo do texto. Parabéns!

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  3. Obrigada pelo teu comentário, Bárbara! 😊 O que dizes é muito pertinente, a adaptação é uma competência mais valorizada do que nunca! Os estudos superiores têm, supostamente, como objetivo preparar os estudantes para o mercado, transmitindo-lhes o sentido crítico necessário para ser um bom profissional. Porém, sabemos que, muitas vezes, isso não acontece.
    Quanto ao Doutoramento, estou absolutamente de acordo contigo, é uma carga de trabalhos ainda mais intensa que o mestrado.
    Devemos apostar mais nos nossos sonhos e nunca deixar de aprender! E nunca desistas dos teus. 😉

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  4. Lindo texto, Elisabete! Uma perspectiva interessante sobre um jovem que faz todo o seu percurso escolar até o doutoramento. Quanto ao doutoramento, foram raras as vezes em que quis, pois o mestrado já deixou-me esgotada e sem querer roubou o meu tempo para fazer outras coisas! O mercado de trabalho não correspondeu aos meus sonhos. E depois os jovens hoje em dia têm que ter um mindset de adaptação e não focar demasiado e somente num objectivo de longo prazo porque os cursos novos são criados mas 5 anos depois as profissões já estão desatualizadas.

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