Nós, os perdidos

Está a acontecer a olhos vistos. Na minha geração, são dezenas, senão centenas. Afinal, o que se está a passar?

É com espanto que olho para as pessoas da minha idade, na casa dos vinte, que não sabem o que fazer da sua vida. Sentem-se perdidos, nenhuma área lhes apraz, apesar de terem uma licenciatura, um mestrado e pensarem num possível doutoramento. Olho para este fenómeno com espanto, pois não pensava vir a conhecer tantas pessoas na mesma situação que eu.

Pois é, eu também já me senti assim. Já senti que nada me deslumbrava ao ponto de querer fazer aquilo o resto da minha vida. Já estive em becos sem saída, sem perspetivas de futuro, sem um plano concreto. Já temi o futuro.

Até encontrar a escrita. A resposta esteve em mim o tempo todo, eu apenas a ignorei por não a achar (e por também me meterem esta ideia na cabeça) viável.

Mas, hoje, o que é viável? Muitas profissões estão a chegar ao fim ou necessitam avidamente de ser reinventadas. Os tempos de agora já não são os de outrora, e cada vez é mais necessária uma verdadeira flexibilidade para exercer funções. Hoje, não basta perceber de gestão, ou arquitectura, ou engenharia mecânica. Hoje, também é necessário compreender outras áreas, aplicando uma abordagem eclética, transdisciplinar a um projecto. É necessário progredir para o digital.

Ainda assim, existe a pressão para ter uma profissão para a vida. Lamento informar-te, mas isso já não existe. E talvez seja por esse motivo que os jovens se sentem tão perdidos. Admiram uma área, idealizam o que seria o trabalho perfeito e, quando a hora H chega, não é nada daquilo que sonharam.

O mundo está repleto de incertezas, e tomar esta decisão tão importante não é pêra doce. E tal não é fácil sobretudo porque muitos a vêem como definitiva, como se aquela formação que fizeram determinasse o que seriam mais tarde. Afinal, investiram muito dinheiro nas licenciaturas, alguns em mestrados e pós-graduações. E, quem sabe, doutoramentos! Existem muitas pessoas, inclusive, que permanecem na academia (entenda-se, universidade), pois temem o “mundo cá fora”, preferindo a rigidez moderada das aulas, dos trabalhos de grupo, dos projectos e das frequências a um trabalho com horário fixo, com mais responsabilidades e do qual dependem para viver.

E aqui está uma conceção errada do mundo. Eu também passei por este processo, por esta fase em que decidi que, já que tinha concluído a licenciatura, também tinha de completar o ciclo e realizar um mestrado. E fi-lo. Hoje, pergunto-me: para quê? Para que fui investir tantas libras num mestrado que não me será útil para a minha escrita? A licenciatura bastou-me, foi grandiosa, aprendi tanta coisa útil! Mas, no mestrado, a única coisa que aprendi foi realizar uma tese em Inglês – e, claro, gostei muito de a fazer. No entanto, poderia ter usado o meu tempo e dinheiro de uma outra forma – por exemplo, a investir noutras formações mais relevantes e em linha com o que agora quero aprender.

Tal como eu, muitos enveredam por este caminho, chegando depois à conclusão de que não é esta a área que eu quero, ou eu não quero fazer isto. Pois bem, vem depois a pressão social de ver os outros atingirem milestones importantes – comprar o seu primeiro carro a prestações, alugar uma casa, juntar-se, tudo com o dinheiro que amealharam ao longo dos anos em que trabalharam nas suas áreas. E nós, os perdidos, continuamos a procurar descobrir-nos ao longo deste percurso.

Eu precisei de um Gap Year para descobrir o que realmente queria. Foi nesse ano que me decidi que a escrita tinha de ser uma prioridade na minha vida. Estudo escrita criativa todos os dias para ser melhor naquilo que agora tenho o privilégio de poder fazer todos os dias. E, neste momento, sinto que me encontrei.

Se te sentes perdido(a), quero apenas aconselhar-te uma coisa: conhece-te a ti próprio(a) primeiro. Sai da tua zona de conforto: vai fazer aquela viagem à Europa, à Ásia ou à América (do Norte, Central, do Sul) com que sempre sonhaste; vai fazer aquele voluntariado internacional que está na tua cabeça há vários meses; vai trabalhar, sente o que o mundo tem para te oferecer. Vive! E, quando viveres, trarás uma resposta no bolso.

 

Elisabete Martins de Oliveira

29.04.2020

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

4 thoughts on “Nós, os perdidos

  1. Olá, Pai! Obrigada pelo seu comentário, é bem verdade o que diz! Hoje em dia, não existe coisa como “um emprego para a vida”, e todos nós temos de nos ajustar a um mundo que nos exige cada vez mais em termos de inovação e diversificação de competências. Eu sei que o Pai é um exemplo disso e fui muito bem ensinada a nunca parar de aprender, a nunca estagnar. 🙂 Agora, outros pais e filhos também têm de aprender, sobretudo, a adaptar-se à mudança – porque, essa, vai sempre acontecer. Um beijinho e obrigada! 🙂

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  2. É verdade filhota. Sabes bem que para o bem e para o mal, sempre estive um passo à frente no meu tempo. O “emprego para toda a vida”, concerteza que não seria o vendedor de aspiradores nem o segurança de um qualquer centro comercial, já que qualquer dessas “profissões”, como tantas outras, estão condenadas a desaparecer. Explicar isto a jovens cujos pais sempre tiveram vistas curtas é o mesmo que ensinar matemática sem se saber aritmética. O mundo está a mudar e não é de agora. Regras que são exigidas no mundo ocidental a quem trabalha são incompatíveis com a inovação que nos vai chegando a um ritmo avassalador dos lados do Oriente. Toda a máquina burocrática ocidental vai ter que se ajustar ou então o risco de colapsar é inevitável! Beijinho

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