A casa da memória

A casa abandonada ergue-se perante mim, altiva, severa. Engulo em seco. Não sei o que é que me deu na cabeça para meter aqui os pés.

Os buracos escuros que antes estariam cobertos por janelas olham-me, austeros. Chamam por mim. É como se me puxassem para o interior deste lugar. Empurro o portão devagar, o chiar crepitante marcando arrepios na minha pele. Olho em redor, procurando conforto na ausência de pessoas à minha volta.

Mas, e se encontrar alguém dentro da casa? O que farei? O que direi? Não é como se eu tivesse trazido um guião para explicar o motivo pelo qual estou aqui.

O meu marido não sabe que estou aqui. Na verdade, não contei a ninguém. E, por isso, tenho de confiar na minha intuição e entrar. Simplesmente entrar.

Respiro fundo. Só mais um passo. Só mais um passo, e estarei lá dentro. Contemplo o exterior da casa. A tinta está lascada, aquela que, antes, era um cor-de-rosa adorável, e as telhas espraiam-se no chão como cacos. O céu mortiço retira vida a este lugar.

Empurro, com a minha mão trémula e suada, a porta de entrada. Esta cede após alguma pressão, a madeira inchada arrastando contra o soalho de mármore.

O coração afunda-se-me no peito quando olho para o interior: a casa onde passei tantos verões, sucumbida ao desgaste do tempo. Há teias de aranha por toda a parte, esvoaçando, quais cortinas, e pó em cada mesa, cómoda e moldura. Ramos de árvores apoderam-se de algumas paredes, vindos do exterior.

Sinto as lágrimas inundar os meus olhos. Acerco-me das fotografias que repousam em cima de um aparador coberto por uma toalha rendada. Pego numa da minha avó. Ela era uma mulher bonita, de um semblante severo mas de uma ternura tão suave quanto algodão-doce. As outras fotografias mostram os meus pais em pequenos. Ao canto, vejo uma em que eu e o meu irmão estamos às cavalitas dos avós.

Sorrio. Adoro regressar a este passado em que eu era feliz e nada me parava. Nada temia. Nada me impedia de ser o que sonhava. Em casa dos avós, tudo acabava por ficar bem – não havia espaço para a tristeza, a raiva, o arrependimento.

Um estalido numa outra divisão causa-me um arrepio no coração. Nas mãos, seguro com firmeza a fotografia dos meus avós connosco. As lágrimas saltam dos meus olhos, num choro silencioso, mas eu coloco a mão à frente da boca para travar o soluço que se quer libertar.

Outro estalido ecoa pela casa. O meu choro cessa. O ar adensa-se, apesar da brisa gélida que entra pelas janelas nuas. Dirijo o meu olhar com os olhos arregalados, para o quarto que pertencera aos meus avós.

Dou um passo em frente, cuidadoso. Pedaços de tijolos estalam sob os meus pés. O meu coração acelera em resposta. Corto a minha própria respiração enquanto avanço, os meus ouvidos mais atentos do que nunca.

Silêncio. Continuo a avançar, a minha garganta seca como o ar do Alentejo em agosto. Parte de mim só quer fugir daqui, desistir desta aventura patética na qual me fui meter. Por outro lado, quero saber o que causa este tão estranho ruído. Serão morcegos? Pássaros?

Estremeço, os arrepios invadindo-me como as raízes de uma árvore. Atravesso o corredor, com três divisões de cada lado. Engulo em seco. Esta parte da casa é mais escura. O meu coração martela-me no peito. Eu consigo ouvi-lo.

Perscruto cada divisão, não me permitindo recordar. Não, agora não é o momento. Tenho de me concentrar. Escutar.

A lâmina surge, cor de prata, tão de repente que me corta a respiração. Os meus olhos fixam o seu brilho metálico através de um rasgão de luz que entra por uma das janelas. Os meus olhos fitam-na, atenta a cada movimento.

Desvio, por escassos segundos, o meu olhar para quem a empunha. O homem, dos seus aparentes cinquenta anos, tem os cabelos grisalhos e desgrenhados, sujos. Enverga roupas puídas e rotas.

Levanto as mãos no ar. Não sei o que mais fazer. Sinto o meu sangue bombear o meu pescoço a uma velocidade alucinante. Só me apetece fugir. Nunca tive tanto medo na minha vida.

— Por favor… — suplico, na minha voz trémula.

O homem avança na minha direção, com a navalha na mão, hirta, pronta a atacar-me.

— Sai daqui! — diz ele, num tom que soa ao chiar de uma porta enferrujada — Sai da minha casa!

Estaco. Baixo os braços. Sinto o meu rosto aquecer. Ele não acabou de dizer aquilo.

— Sai tu. — digo, num rugido grave e ameaçador — Esta casa é minha!

Vejo o azul dos olhos do homem intensificar-se. Ele olha-me, irado, mas eu não cedo. Esta é a casa dos meus avós. Não pertence a mais ninguém!

Ele investe contra mim, tão rápido que não me consigo desviar. A navalha perfura a minha barriga. Sinto o sabor metálico do sangue na minha boca. O cheiro quente, denso e repugnante do homem povoa-me as narinas.

A dor lancinante invade o meu corpo, mas não penso desistir. Empurro o homem, e este cambaleia, de costas, pelo corredor. Cai no chão. Levo as mãos à navalha e, soltando um grito gutural, retiro-a de mim. Avanço em direção ao sem-abrigo, os meus olhos sedentos de vingança, e atiro-me para cima dele.

Ele esbraceja, em defesa. Os meus músculos estão tão tensos que sinto que a minha energia jamais se irá esgotar. Ele grita, mas eu não cedo. O homem começa a tossir. As suas mãos acodem à sua boca, deixando o seu peito a descoberto.

A navalha perfura a carne. Enterro-a no seu peito até ao cabo. Os seus olhos fitam o meu rosto tenso, em choque.

Levanto-me, arquejando. O sangue espraia-se pelo que resta do chão da casa dos meus avós. Levo as mãos à cabeça. O que é que eu fiz?!

Encosto-me à parede e deixo-me descair até ao chão, inundada pelo odor ácido e quente a sangue do homem que acabei de matar. Ignoro o sangue que jorra de mim. Encolho as minhas pernas e abraço-me a elas, embalando-me.

Esta é a casa dos avós. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem.

Elisabete Martins de Oliveira

09.10.2020

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

4 thoughts on “A casa da memória

  1. Olá, Vera!
    Muito obrigada pelo teu feedback, fico mesmo feliz por ter passado essas emoções para ti! Eu queria começar assim – com um momento calmo e de recordação, e depois evoluir para uma surpresa desagradável. 😁
    Estou ansiosa para ler os teus contos!!
    Um grande beijinho! 😘

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  2. Olá, Daniela!
    Obrigada por este comentário, nem imaginas o sorriso que tenho no rosto neste momento!
    Sabes que eu admiro imenso o teu trabalho, e sei que tens muita atenção ao detalhe! Escreves muito bem e tenho vindo a aprender muito contigo!
    Obrigada pelo teu feedback precioso, fico muito feliz por saber que comprarias o meu livro! Estou a tratar disso, e trata também do teu, que eu também te quero ler!!
    Um grande beijinho e boa escrita! 😘

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  3. Mas que fim!
    Comecei por viajar na descrição calma e sentida (se é que me faço entender. ahahah)
    De repente, estou no meio de uma cena de ação e fico tão aflita.
    E esse final? Gostei tanto como finalizaste com o sentimento que a personagem tinha da casa dos avós.

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  4. Que texto impressionante :O Adorei!!
    Tu tens imensa qualidade, parabéns! E apresentaste um trabalho super perfeitinho e nível de revisão (sabes que reparo sempre nisso :P). E usas comparações tão bonitas!

    Gostei muito de ver como nós duas imaginamos casas diferentes, é esta a magia deste tipo de desafios. E o teu texto não tem nada de sobrenatural. 🙂

    Sabes, além dos textos de opinião que partilhas aqui no teu site, ainda não tinha lido nada de ficção escrita por ti, por isso estava mesmo muito curiosa. E digo-te, eu comprava já o teu livro, não interessa se ainda nem sequer está escrito!!

    Parabéns e venha lá o próximo desafio!

    Beijinhos

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