zona de (des)conforto

Ouve-se falar muito da importância de sair da zona de conforto. Hoje em dia, é quase um mantra, se é que já não o é. Trata-se, na minha perspetiva, do desabrochar das potencialidades de cada um, da descoberta de até onde cada um de nós consegue ir.

Sair da zona de conforto é um processo, tal como crescer ou adquirir uma competência. Exige força de vontade, motivação intrínseca e ambição. No entanto, o que previne a maioria de nós de sair dessa zona são vários fatores que, juntos, se tornam difíceis de combater. São eles a procrastinação, a preguiça e o medo. Quando se trata de mudar, o ser humano consegue ser extremamente criativo no inventar de desculpas para não o fazer. Afinal, mudar implica alterar uma rotina pré-estabelecida que nos permitia viver confortavelmente.

E, no entanto, é esta saída do que é habitual e conhecido que nos permite descobrir partes de nós que antes desconhecíamos. No fundo, é como encontrar um tesouro misterioso no sótão da nossa casa. Como assim, não tínhamos reparado ainda que ele ali estava? Entrar numa zona desconhecida, que nos irá testar a todos os níveis – emocional, cognitivo e comportamental – pode ser uma aventura emocionante. Eu costumo compará-la a andar numa montanha-russa: é extremamente assustador, atingimos picos de ansiedade e gritamos; mas soltamos uma gargalhada depois de vermos o quão divertido e emocionante é.

Sair da zona de conforto é um processo que implica disciplina: é fácil regressar ao estado de mesmice e de conforto. Os obstáculos que encontramos podem ser assustadores e, com medo, recuamos ao início, ao ponto estagnado onde nos encontrávamos. O medo é um fator protector, mas também um impedimento. Receamos tanto o que é novo e diferente que nos auto-sabotamos. E isto acontece com mais frequência do que julgamos – basta estarmos atentos às vezes que arranjamos desculpas para não fazer alguma coisa!

O processo de mudança, apesar de todos os benefícios que tem, também é cansativo. Se saímos tanto da nossa zona de conforto que, quando damos por nós, não sabemos onde estamos, o que estamos a fazer ou para que o estamos a fazer, podemos sentir-nos perdidos e desconfortáveis. Para viver uma vida plena, o ser humano precisa de garantias. A rotina proporciona algumas dessas certezas. Por exemplo, se analisarmos a pirâmide de Abraham Maslow, verificamos que não podemos satisfazer as necessidades de autorrealização sem antes satisfazermos as necessidades fisiológicas e de segurança. Em termos práticos, não nos podemos sentir realizados pessoal ou profissionalmente se não tivermos algumas comodidades básicas: comida, uma cama para dormir, e um lugar onde nos sintamos protegidos. Se estivermos constantemente à espera que nos assaltem, não nos iremos preocupar com a nossa autorrealização.

Desta forma, na minha perspetiva, é importante manter um equilíbrio entre a zona de conforto e a “zona de desconforto”, a porta que nos dá acesso à mudança. É fundamental que exploremos para além do que nos é visível, mas que também tenhamos em conta que é preciso fazê-lo um passo de cada vez. Todos somos únicos na forma como experienciamos a mudança, e algumas pessoas sentem-se mais ansiosas com pequenos passos, ao passo que outras se sentem confiantes com alterações mais significativas na sua vida. Duas pessoas não reagem de forma idêntica a ir viver uma aventura na selva, ou a explorar uma região completamente desconhecida. Umas necessitam de planear essa viagem, enquanto que outras preferem explorar de forma espontânea.

Por isso, quando pensares em sair da tua zona de conforto, fá-lo ao teu ritmo. Afasta o medo para abrires mais possibilidades, e mergulha nessa aventura. Tem em mente que é importante manteres garantias na tua vida, e que o processo não deve ser traumático! Sair da zona de conforto pode ser uma experiência incrível se o fizeres de uma forma alinhada contigo.

Elisabete Martins de Oliveira

14.10.2020

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

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