Reviravolta

Novamente este rosto. Acho que estou a ser seguida(o)…

Olho para trás uma última vez. Não, não vou mostrar que estou assustada. Se o fizer, ele pode tentar atacar-me.

Mas o medo fala mais alto: sinto as minhas mãos suadas, segurando com firmeza as alças da minha mochila. O meu coração galopa dentro do meu peito, pronto a desmascarar esta aparente calma. Já não é a primeira vez que ele me segue.

Eu sinto-o perto. No fundo, é como um sexto sentido – quando sabemos que alguém está a fitar-nos mesmo quando não estamos a olhar para essa pessoa. Neste caso, no entanto, o perigo é maior.

Muito maior.

Fecho os olhos e inspiro devagar. Caramba, porquê eu? Eu pensei que estas coisas só acontecessem nos filmes. Sim, eu remexo-me no meu sofá sempre que vejo um thriller ou um filme de terror, mas esta sensação é completamente diferente.

É semelhante à da aproximação da morte.

Mas não no bom sentido, no sentido de aceitação da vida que tive e com a consciência de que vivi uma vida feliz.

A minha mãe diz que eu tenho a vida pela frente. Mas, neste momento, eu não o sinto. Daqui a poucos metros, vou seguir uma rua menos movimentada. Será que devo continuar a ir por aí?

E se ele perceber que eu estou a mudar o caminho de propósito?

E se me tentar atacar?

E se eu morrer?

O que é que eu faço? Sigo pelo caminho habitual, ou dou uma volta maior para chegar a casa em segurança?

Mas, outra vez, o que é que me garante que vou sair daqui viva?

As lágrimas assomam aos meus olhos, traiçoeiras. O rosto da minha mãe e do meu pai surgem, carinhosos, no meu radar, e eu só quero abraçá-los. Ouço as vozes dos meus amigos, a Catarina, a Magda e o Jorge, tão animadas na minha mente. Ainda hoje fizemos um piquenique no parque, a conversar sobre o que vamos fazer depois do Secundário. Mas ainda faltam dois anos para isso.

Penso em tudo o que quero fazer: tirar a carta, ir para a universidade, alugar um apartamento no centro da cidade durante um ano, só para ter uma experiência diferente da que tenho nesta pequena cidade dos subúrbios. Quero ter um cão, que me acompanha nas corridas matinais e me recebe em casa, num turbilhão de entusiasmo, quando eu volto do trabalho.

Tudo isso podia acontecer… não fosse o facto de eu estar a ser seguida por este rapaz há já mais de dez minutos. Não me quero voltar, embora a vontade quase me faça torcer o pescoço para trás.

Respira. Tens de te conter, Margarida.

Sigo por uma rua diferente da habitual, mais movimentada. Pelo menos, sei que o posso desincentivar de se aproximar demais. Esse já é um começo.

Estranho não estarem a passar tantos carros: entre as cinco e meia e as seis, deveria ser hora de ponta. Caramba, porque é que ninguém passa na rua?

Sinto uma mão tocar-me no ombro e dou um salto, com o coração gelado. Volto-me para trás e começo a andar em marcha-atrás, afastando-me deste rapaz que cobre o seu rosto com um cachecol, deixando apenas os olhos visíveis.

— Deixa-me em paz! — digo, tentando mostrar autoridade. Porém, a voz sai-me trémula, esganiçada, e eu repreendo-me mentalmente por não ter mais controlo sobre mim.

— Espera. — diz-me ele, colocando as mãos à frente, como se estivesse a tentar apanhar um cão abandonado. Aquela voz… — Margarida…

— Como é que sabes o meu nome?! — grito, mas ninguém me ouve. Ninguém passa na rua.

— Margarida, sou eu. — ele leva a mão ao rosto e retira o cachecol. Remove o carapuço do casaco e revela a sua cabeça rapada, os olhos azuis, o rosto quadrado e definido.

O meu irmão.

— Ricardo? — paraliso. Sinto a afluência de emoções derrotar-me – os joelhos cedem, os olhos arregalados enchem-se-me de lágrimas, as mãos tremem-me — Tu… tu estás vivo?!

Ele nada me diz. Olha fixamente para o chão. E, então, ela surge: a raiva. Como um míssil, lanço-me a ele e começo a esmurrar o seu peito, libertando todo o sofrimento dos últimos anos.

— Porquê, Ricardo?! Porque é que nos mentiste?! Tens noção do que eu e os pais temos sofrido por tu teres morrido? Como é que, agora, apareces do nada?

— Deixa-me explicar… — sussurrou — Eu meti-me em problemas, Margarida. Se eu não fingisse que estava morto, vocês…

— Nós o quê?

— Vocês podiam morrer. Eles iam matar-vos.

Sinto uma dor de cabeça latejante que me deturpa os sentidos. Tenho a sensação de que vou desmaiar não tarda nada.

— Ajuda-me. — suplica. Olho-o nos olhos, azul no azul, e eu cedo.

Como posso recusar ajudar o meu irmão?

Agarro nele e metemo-nos num autocarro para a capital. A viagem leva meia hora, apenas. Na estação de autocarros, compramos dois bilhetes de ida para fora do país.

Sentamo-nos nos bancos almofadados do longo autocarro, e respiramos fundo. O meu coração está mais agitado do que há uma hora. Sinto que estamos a fugir de alguém.

E não estamos?

O alarido do exterior – de vozes de pessoas a conversar com outras, e a arrumar as malas no compartimento em baixo – contrasta com a ansiedade que me pulsa nas veias.

— Para onde vamos? — pergunta-me, com um olhar expectante.

— Para um lugar seguro. — o meu tom é baixo. Não quero que nenhuma das pessoas que se atropelam no corredor nos ouçam.

Deveria estar feliz por ele estar vivo. E estou. Mas, agora que o revi, temo novamente pela vida dele – e se algo lhe acontecer? Respiro bem fundo. Estou a fazer isto por ele. Para que ele viva. Para que, um dia, possa regressar para junto de nós.

Há uma hora atrás, eu estava a ser seguida. Temia pela minha vida. Pensei genuinamente que iria morrer. A situação não mudou muito. No entanto, desta vez, estou a salvar o irmão que eu pensei estar morto durante estes últimos dois anos. Agora, estou a protegê-lo de ser assassinado. A vida é curiosa, não é?

Elisabete Martins de Oliveira

17.10.2020

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

2 thoughts on “Reviravolta

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