Elisabete Martins de Oliveira

Conto da participante m.g. Ferrey

Já é tarde demais. Eles querem vingança. Não tenho escolha senão fugir.

Levanto-me rapidamente do sofá, pego num saco de pele velho onde enfio algumas peças de roupa, o carregador do telemóvel e o livro de cima da mesa-de-cabeceira. Não tenho tempo para mais nada. Eles estão aí. A rondar, à espreita. Sinto-o nos meus ossos.

Filhos da mãe! — refilo, entredentes, enquanto calço uns ténis à pressa.

Não sei como deixei a situação descontrolar-se desta forma. Ainda me lembro como tudo começou: uma brincadeira. Atraí-o e depois, em total descontrolo, matei-o. A partir daí a minha vida tornou-se num inferno.

Esgueiro-me e tranco a porta. Corro escadas abaixo e pego no telemóvel. Não posso adiar mais, preciso de ajuda. Assim que termino de falar com o contacto que trata dos casos difíceis do submundo, ligo para a minha melhor amiga.

— Olá, Gabi! — A Isabela atende ao primeiro toque, divertida e sem saber que estou prestes a deixar a sua vida de pantanas.

— Isa, posso dormir aí? — digo, ofegante.

— Claro. O J. chega tarde do trabalho hoje. Estás a correr?

— Estou. Já te explico.

— Cá te espero.

Caminho sub-repticiamente, entre as sombras, mas nem isso sossega o meu coração. O som da morte continua enraizado no meu cérebro, o barulho estridente, a destruição da luta, o aroma metalizado do sangue. Tanto sangue. Mas tinha de ser. Era ele ou eu. Desfazer-me do corpo foi o mais difícil. E, viver com essa culpa, atormenta-me até hoje.

A água das poças da chuva entranha-se no tecido dos meus ténis. A cada dois passos olho por cima do ombro e mudo de direção, pelo que demoro um pouco mais a chegar. A Isa e o J. vivem numa vivenda pequena num bairro cool e limpo, pelo que, se não fui seguida, este é decididamente um sítio que eles nunca vão suspeitar e visitar.

Toco à campainha e uma mão puxa-me pelo pulso.

— Então, miúda! Demoraste — diz Isa, num abraço.

Retribuo o abraço como se a minha vida dependesse disso. E assim, sem me conseguir controlar, desato num pranto.

— Estás a assustar-me, Gabi. O que se passa? E porque estás toda encharcada? — Isa tira-me o saco da mão, encaminha-me para uma cadeira, força-me a sentar e descalça-me.

Estou sem força, por isso deixo que ela cuide de mim. Assim que estou seca e com roupas confortáveis, o olhar inquisidor da minha amiga não desgruda. Sei que quer respostas, tenho de lhas dar.

— Eu… Eu matei… E agora, eles querem matar-me… — Tento falar, entre soluços, mas não consigo verbalizar o que sinto.

Pânico nos seus olhos.

— Quem te quer matar? — Vira-se para confirmar que não está ninguém atrás dela. Levanta-se e fecha a porta de casa à chave. Boa, consegui passar-lhe a minha paranoia. Só queria conseguir explicar-lhe que, se eles quiserem mesmo entrar, não será uma porta a impedi-los.

— Ele… Nos meus anos…

— Nos teus anos. O mês passado? — Isa incentiva-me a continuar com palmadinhas suaves nas mãos.

— Lembras-te… depois de cantarmos os parabéns em minha casa, fomos para o bar. Eu bebi, bebi demais.

— O que se passou? Eu sabia que não te devia ter deixado ir para casa sozinha. Bolas!

— Quando entrei em casa, ele estava à minha espera. — Ao relembrar, um arrepio percorre o meu corpo, e eu abraço-me para apaziguar o asco que ainda sinto.

— Oh, meu Deus! Quem? Como é que ele entrou?

— Já nos tínhamos cruzado. Conheço o grupo dele… Reconheci-o de imediato; os olhos sorridentes e maliciosos. Sentado, em cima da mesa, a comer bolo. Mas, em vez de gritar ou de o enxotar porta fora, eu… eu seduzi-o.

Isa escancara a boca de admiração, mas aguarda que eu continue.

— Contornei a mesa, devagar, e peguei numa fatia de bolo. Apetecia-me… sabes?… Brincar! — A vergonha toma conta de mim, por isso enfio o rosto entre as mãos. — Levei um pouco de chantili à boca e lambi os lábios. Isso deixou-o ainda mais desejoso. Então, andou até mim, pé ante pé, qual predador. Mordiscou o bolo da minha mão, uma e outra vez. Vi que ele queria mais e foi nesse momento que me descontrolei. Peguei na jarra que me ofereceste e parti-a na sua cabeça. Ele agrediu-me e lutamos. Estava ferido e tentou fugir, mas acabei por matá-lo. E depois… livrei-me dele. — Enterro ainda mais o rosto nas mãos e o já conhecido sentimento de culpa retorna.

— Porra! Tu mataste mesmo alguém! Vou chamar a polícia. — Levanta-se de um pulo e pega no telemóvel de cima da mesa da sala.

— Não — grito. — Por favor, Isa, não é preciso chegar a tanto. Tenho um contacto profissional a tratar do assunto.

Incrédula, ela passa a mão pelo rabo-de-cavalo. Gesto que faz com frequência, quando está nervosa.

— Muito bem. O J., então. Ele saberá o que fazer.

Afasta-se para outra divisão. Ouço-a falar, mas a sua voz é abafada pelo que não percebo o que lhe diz.

Passados dez longos minutos, J. aparece, afogueado e a transpirar. Neste momento sinto-me grata pelos meus amigos. O meu corpo parece querer relaxar um pouco e eu permito-lho.

— O que se passa? — pergunta J. assim que entra na sala.

— Está desesperada. Ela matou um tipo qualquer o mês passado — sussurra Isa, os olhos arregalados.

— Matou? Como assim, matou? Quem?

— Não me diz quem ele é. Quando entrou em casa ele estava lá. Ia fazer-lhe mal. Acho que faz parte de um daqueles grupos que costuma andar pelo bairro dela.

— Temos de chamar a polícia.

— Ela não quer. Desfez-se do corpo. Mas acho que os amigos dele descobriram e andam atrás dela. Ela diz que tem um profissional para tratar deles.

— Foi legítima defesa. Temos de saber quem é o tipo e evitar piorar as coisas.

Eles falam baixinho e como se eu aqui não estivesse. Toda esta conversa me deixa extremamente confusa. O que estão eles a dizer e a insinuar?

J. baixa-se, pousa-me as mãos nos joelhos e olha-me nos olhos. A minha cabeça está num reboliço e percebo agora, neste exato momento, que exagerei.

— Gabi, querida. Quem é o tipo? E onde escondeste o corpo dele? Para te ajudar, preciso de saber.

— No lixo — digo, num fio de voz devido à imensa vergonha que sinto. — Era um rato.

M.G. Ferrey

23.10.2020