Somos animais

Debaixo da pele de cada ser humano, está um animal. Selvagem, impulsivo, imprevisível. Mas está contido. Pelo menos, até os seus instintos falarem mais alto.

Já alguma vez tinhas refletido sobre isto?

Por serem criadas e influenciadas pelas normas sociais e dentro de uma cultura que incentiva à vida civilizada, as pessoas comportam-se, na maioria das vezes, de forma domesticada. E por que motivo uso esta expressão? Porque, tal como os animais selvagens, nós, seres humanos, somos capazes de interiorizar uma série de padrões expectáveis de comportamento, que terão recompensas.

Sim, nada mais é do que isto – uma questão de reforço positivo. Claro que nós somos capazes de funcionar a um nível superior ao do reforço; no entanto, no modo mais básico, não deixamos de ser animais. Animais que foram inseridos em contextos que assentam numa vida organizada em sociedade.

Ouve-se falar das crianças selvagens, que foram criadas por animais. Segundo vários estudos feitos ao longo dos anos, verificou-se que estas crianças comportavam-se como os animais com os quais foram criados – estamos a falar de lobos, de macacos, ou de cães selvagens. Aprendiam os seus modos, desenvolviam uma linguagem para comunicar entre si, e algumas não aprendiam a falar como outros seres humanos. Por terem sido criadas em contextos em que primava a luta pela sobrevivência (visto que fugiram de casa ou foram abandonadas em idades precoces em florestas), adaptar-se ao mundo humano foi, para algumas crianças – algumas já adolescentes ou adultas – desafiante.

Mas porque refiro o exemplo das crianças selvagens? Porque elas constituem a prova de que, por baixo de cada ser humano, reside um animal, com instintos básicos de sobrevivência, capaz de deitar por terra os seus princípios, valores, autocontrolo, e racionalidade pelo bem da sua vida e pela dos que ama.

Se isto constitui um perigo? Eu acredito que não. Quando temos a consciência de que somos animais debaixo de várias camadas de educação, racionalidade, personalidade e autocontrolo, treinadas ao ponto de não cedermos sob um determinado nível de pressão (variável de pessoa para pessoa), sabemos como melhor atuar perante uma situação-limite. Não que saibamos tudo, mas esta informação é preciosa. O conhecimento ajuda-nos a iluminar o desconhecido.

Quando determinadas pessoas agem de uma maneira contrária ao expectável, podemos associá-lo a vários motivos: perturbação mental, tal como a perturbação bipolar, a perturbação de comportamento, o autismo, ou a esquizofrenia, que podem alterar a química do cérebro; ao burnout, que ocorre quando a pessoa já se encontra num estado de absoluta exaustão física e emocional; à pressão, sendo que esta pode ter como origem as relações sociais, as expectativas ou a pressão profissional. Olhando para estes motivos, podemos distanciar-nos deles, dizer algo como Isso não me acontece.

E se eu disser que eles estão mais perto do que nós do que pensamos?

Qualquer pessoa, tendo a genética e o ambiente propícios a tal, pode desenvolver uma perturbação mental – e pode fazê-lo na idade adulta –, sofrer um burnout, ou sofrer pressão social ou profissional. Basta haver uma mudança significativa na sua vida para o justificar. E são precisamente estes testes durante a nossa vida que podem revelar facetas que antes desconhecíamos.

E se perdesses quem mais amas?

E se perdesses o teu trabalho?

E se perdesses a tua casa?

E se te tornassem num escravo?

Estas situações não são assim tão impossíveis. Não estamos a falar de uma distopia, mas sim de probabilidades da vida. E, embora os seres humanos sejam verdadeiramente adaptáveis e consigam viver em condições extremas, é em momentos como este que descobrem os seus pensamentos mais obscuros.

Sobrevivência.

Este é o nosso lado mais animalesco. É nestes momentos que os princípios ou os Dez Mandamentos vão pelos ares e dão lugar a uma vontade impulsiva de recuperar a sua dignidade.

E, nestes momentos, sabemos lá do que somos capazes. Somos animais.

Por isso, quando alguém diz Eu não era capaz de…, eu começo a pensar: Não foste exposto ou exposta a essa situação, logo, não sabes como agirias, porque não conheces os teus limites.

Quando construímos personagens, refletimos acerca do que eles nunca seriam capazes de fazer. Será matar? Roubar? Abandonar a família? São tantas as opções, todas elas complexas, que podemos explorar! Mas o que é que acaba por acontecer? Colocamo-las em situações desafiantes, limite. E, aí, o que é que descobrimos? Que, mesmo que não chegue, talvez, ao extremo de matar, os nossos personagens são capazes de fazer qualquer coisa para atingir os seus objetivos.

Qualquer coisa.

É o instinto.

Muitas pessoas não olham a meios para atingir os seus fins. Há quem não tenha piedade, compaixão, ou consideração pelos outros. Essa proximidade ao egoísmo, que, por vezes, nos parece estranha, é o comportamento socialmente aceitável (e feio) mais próximo do instinto animal.

Debaixo da pele de pessoas altamente complexas, e de várias camadas de domesticação contínua, somos animais. Somos tão meigos quanto conseguimos ser ferozes. Somos tão inteligentes quanto protetores. Somos tão amigos quanto conseguimos ser predadores. O instinto entra em ação quando as nossas necessidades mais básicas, definidas na base da Pirâmide de Maslow, não conseguem ser nutridas. E, apesar de tudo, somos animais francamente admiráveis.

Elisabete Martins de Oliveira

06.04.2021

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

2 thoughts on “Somos animais

  1. Olá, querida Ana Gui,

    Muito obrigada pelas tuas palavras! Muitas vezes, inspiro-me na realidade – um dia, estava a refletir sobre os instintos no ser humano, e lembrei-me dos tempos em que eu estudava Psicologia. Decidi escrever este artigo – foi uma decisão espontânea, e adorei escrevê-lo! Eu sei que, por baixo de cada camada de educação, racionalidade, normas e princípios sociais, está um animal, com instintos de sobrevivência como qualquer outro. O ser humano fascina-me, é uma das minhas bases de inspiração! 🙂

    Grata por todo o teu apoio!

    Um grande beijinho,
    Elisabete.

    Gostar

  2. Olá, Elisabete!

    Conforme avançava pela leitura desta publicação, a pergunta sobre que personagem ou situação te levou a tão visceral texto ganhava amplitude. Gostei muito! Aprecio bastante os paralelismo entre a ficção e a realidade. Parabéns! Este teu blogue dá vontade de ler muito mais e de escrever outro tanto.
    Beijinhos.

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s