Pré-burnout

Há umas semanas, desafiei-me a conseguir concretizar vários objetivos. Queria superar-me, conseguir um ritmo de trabalho pulsante e enérgico, sem pausas. Eu sou assim: gosto de puxar os meus limites.

E, por experiência própria, isso nunca correu bem.

A parte do puxar os limites, talvez. Quando eu quero uma coisa, eu levo-a até ao fim. É preciso uma ideia não ser de todo viável para me demover. No entanto, as consequências são o que faz esta equação não resultar — o cansaço, a exaustão, a falta de energia que se começa a tornar crónica. Quando “empreendo” estes momentos para rebentar com a escala de produtividade, esqueço-me (sempre) de um pormenor: eu vou sofrer a seguir.

Durante semanas, andei a trabalhar uma média de 10 ou 12 horas por dia. E isto é algo eu sei e que vejo muitos empreendedores fazerem – já o diz a Filipa Maia, mentora de negócios online. Como sou apenas eu a gerir um projeto maior do que eu, sinto a necessidade de estar constantemente a trabalhar para conseguir os meus objetivos em tempo útil.

Tempo útil, essa expressão tão poderosa.

Eu gosto de demorar pouco tempo para concretizar aquilo a que me proponho. Sou muito exigente comigo, quero tudo para ontem, para hoje, para agora. Tolice, eu sei. Já cheguei ao cúmulo de afixar um papel na parede com o provérbio “Roma e Pavia não se fizeram num dia”. De vez em quando, preciso de me recordar que as coisas (as boas, sobretudo) levam tempo.

Enfim, andava eu neste ritmo frenético quando vi um workshop intitulado “Boost your productivity and creativity with Personal Retreat Days”, dinamizado por Wende Whithus. Foi um convite da Creative Mornings, uma organização que, ultimamente, tenho seguido e que tem Talks muito interessantes! Já a adivinhar de que este workshop seria muito bem-vindo e necessário, inscrevi-me mal o vi. E, quando o dia chegou, eu já estava esgotada, e, ironicamente, não pronta para terminar o trabalho. Ainda havia tanta coisa que queria fazer! Já me doía o corpo todo, já não estava a processar a informação com a atenção que devia.

Estava a aproximar-me do estado de ansiedade de querer tudo para ontem quando, ao entrar no workshop, me deparei com uma formadora com um tom de voz doce, maternal, que começou a explicar o conceito de Personal Retreat Day (PRD, em Inglês, ou Dia de Retiro Pessoal, em Português). Este é um dia dedicado a nós, a tudo o que não esteja relacionado com trabalho e, de preferência, longe das redes sociais e fora de casa.

Apaixonei-me de imediato pelo conceito. A formadora sugeriu várias formas de aproveitar um PRD, entre as quais passear, ler, fazer exercício leve, dormir uma sesta, dedicarmo-nos a hobbies, relaxar, planear ou meditar. Esse dia pode ser o que nós quisermos. E, no entanto, Wende referiu que muitas pessoas se sentem culpadas ou dizem não ter tempo ou privacidade para o fazerem. Mas é possível obter tudo isso. Nós é que arranjamos desculpas. Somos peritos nessa arte!

Os Personal Retreat Days são dedicados a nós, à reposição do nosso equilíbrio mental e físico, à criação, à reflexão e à criatividade. O que poderia ser melhor? Todo o stress desapareceu — dei por mim envolvida no workshop, com a voz de Wende a desenvolver o contexto por detrás dos PDR, e a importância de fazermos uma reflexão no final do dia, com uma grelha especial, estilo bullet jornal, em que definimos como está a nossa vida nas suas várias dimensões, aonde queremos chegar e o que iremos fazer para isso. Como não me apaixonar?

Saí daquele workshop renovada. Senti que queria fazer aquilo – tirar um dia para mim, para me dedicar à reflexão do que eu queria mesmo concretizar. Senti uma nova esperança crescer dentro de mim, o entusiasmo a pulsar-me nas veias.

E, de repente, uma exaustão que quase me quebrou.

Pois é. A exaustão retira-nos energias. O entusiasmo também. As novas ideias surgem como pipocas — e sou muito grata por cada uma delas —, mas não as consigo pôr em prática, porque tenho mil e uma outras para cumprir. Então, ativamente, bloqueei cada nova ideia que se tentasse instalar na minha mente.

Continuei naquele ritmo insano durante mais dias. Os fins de semana não eram suficientes para restabelecer o meu equilíbrio. E havia sempre mais qualquer coisa para fazer.

Cheguei ao ponto de começar a perder o raciocínio com a mesma rapidez com que o iniciava; a minha memória a falhar-me com mais frequência; a dormir mal à noite e a não conseguir levantar-me no dia a seguir.

Isto é pré-burnout. E só não chegou ao burnout porque eu não fui parar ao hospital.

Digo isto com naturalidade porque sei que não sou a única pessoa a passar por isto. E deixo um aviso: os sintomas que apresentei são indícios muito graves de burnout! Se te sentires assim, para. Para de verdade.

Uma grande amiga minha escutou-me quando eu já não aguentava mais. E tivemos uma das conversas mais sérias dos últimos tempos. Ela admitiu estar preocupada comigo, por compreender o que eu sentia — também já tinha passado pelo mesmo, e eu recordo-me dessa altura — e por ser perigoso tudo o que eu sentia. Aconselhou-me a parar. A parar mesmo.

Conversei também com algumas pessoas que conheci no Instagram, em quem confio, e que, por experiência (infeliz), conhecem esta exaustão. Também me avisaram da importância de desacelerar. Sou grata por todos aqueles que querem o meu bem.

Numa segunda-feira, após uma noite mal dormida, com obras na rua a começarem às sete da manhã, bati no fundo. Olhei-me ao espelho e não me reconheci — os olhos vermelhos e encovados, o rosto pálido, os lábios curvados para baixo, a expressão abatida. Tirei uma foto a mim mesma naquele estado, para nunca mais me esquecer do que significa “puxar os meus limites”.

E nunca esquecerei. Foi uma estranheza tal que decidi abrandar nesse dia, e noutros dois nessa semana, antes do fim de semana. Não me aproximei do computador e fui passear por Estocolmo. Fiz não um, mas dois Personal Retreat Days. E, tal como tinha previsto uma amiga querida do Instagram, eu regressei ao computador com mais vontade de trabalhar!

Num ano de projeto, já é a segunda vez que entro num estado de pré-burnout. Este é quase um “osso de ofício” do empreendedor, mas não é uma desculpa. Eu tenho de aprender a desacelerar. A parar. E não me sentir culpada ou menos produtiva com isso.

Se há algo de positivo que surgiu desta pausa, foi o regresso das ideias! E, sim, desta vez, consegui aceitá-las e abraçá-las. Foi tão bom! Sinto-me grata pelos PDR! Recuperei a minha energia, a minha produtividade (ainda estou a regressar, a pouco e pouco, aos níveis que tinha antes) e a minha serenidade perante o volume de trabalho que tenho. Estou a aprender a aceitar que nem sempre vou conseguir cumprir os objetivos que tracei para o mês, para a semana ou para o dia. E está tudo bem! Faço o que posso, ao meu ritmo. Respiro fundo.

O mais importante é a minha saúde mental. Sem ela, o meu projeto não sobrevive. Digo isto para mim e para ti, que gentilmente cedeste o teu tempo para ler a minha reflexão. Cuida de ti. Cuida mesmo. Quando te sentires cansado ou cansada, abranda. Quando te sentires exausto ou exausta, para. Tira um Personal Retreat Day para ti!

E tu, já estiveste numa situação de pré-burnout?

Elisabete Martins de Oliveira

22.04.2021

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

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