Profissão: escritora

Quando eu era pequena, queria ser veterinária e, um pouco mais tarde, violinista — duas profissões começadas por “v”, imagine-se! Só não sabia, na altura, que a profissão que eu iria escolher tinha a mesma inicial que o meu nome: escritora.

Na escola, gostava de escrever. Tive a sorte de ter uma professora incrível, que me incentivou a criar magia com as minhas palavras. Mas foi na adolescência que o caso se tornou sério: lembro-me de, aos fins-de-semana, estar constantemente a anotar em papéis ideias para histórias. E não eram ideias para romances light — com 13, 14 e 15 anos, já pensava em temas como a violência, a manipulação, o bullying, a violação e a síndrome de Estocolmo. Eu não me ficava por temas “leves e simples”, como histórias boy meets girl. Talvez houvesse um pouco disso nessas ideias, mas o drama da vida dos meus personagens era o centro das narrativas.

Já tão nova, eu pensava no quanto a vida era difícil, talvez em parte porque tenha sofrido na escola. Eu já conhecia a dor de ser humilhada e manipulada por outros miúdos da minha idade, e outros mais velhos. E isso não mudou desde então.

A minha vida, hoje, não se assemelha nada à que tinha antes — depois de me ter livrado de alguns estupores, fiquei com a família, o companheiro e os amigos que verdadeiramente importam. No entanto, o drama continua a ser o tema predominante nas minhas histórias porque eu compreendo a mágoa dos meus personagens. Todas as narrativas têm um pouco disto, mas eu gosto de ir à dor profunda, ao sofrimento visceral. Não é porque sofra como elas, mas porque me consigo colocar no seu lugar, viver a sua dor e passá-la para o papel.

A minha formação em Psicologia é uma grande ajuda neste sentido. Não só conheço e dou a conhecer a dor dos meus personagens, como consigo aliá-la às suas personalidades e estratégias de coping. Tem sido uma jornada incrível, esta de conhecer os meus personagens!

Depois de ler o livro do João Tordo, “Manual de sobrevivência de um escritor ou o pouco que sei sobre aquilo que faço”, e de me confrontar (novamente) com a dura realidade que é o mercado literário em Portugal e as escassas probabilidades de se viver da escrita, desanimei. Portugal é não só um país de poucos leitores, como também um de editoras que fecham as portas com cadeados, impedindo a entrada de promissores jovens autores. Não é fácil viver-se da escrita no nosso país. E, apesar de todas as adversidades, não quero fazer outra coisa senão isto.

Já tinha escrito, numa reflexão anterior, que ser-se escritor é algo que não se pode, simplesmente, negar. Eu não posso, de um dia para o outro, deixar de escrever. Posso apostar contigo que, se ficar uma semana sem escrever, vou sentir-me frustrada, ansiosa, e correr o risco de insultar alguém. Quem é um verdadeiro escritor não para de o fazer apenas porque o mercado lhe fecha as portas. É algo visceral, tão essencial quanto respirar. Por isso, eu sei que, não importa quanto o mercado não aceite o que escrevo, eu não vou deixar de o fazer.

Nós, escritores, temos uma necessidade irreverente de nos expressarmos por palavras. Podemos ser bons oradores, apreciar uma boa conversa, mas temos de nos sentar à secretária a escrever — literal e metaforicamente. Podemos também escrever uma breve nota ou uma observação num caderno em cima do joelho, na rua!

Por isso, quando eu era pequena e queria ser veterinária ou violinista, não imaginava que, dentro de mim, o desejo de criar histórias a partir da minha imaginação — sem ter de recorrer a bisturis e a um arco — se estava a formar. Já em adulta, devo ressalvar, tive aulas de violino, e adorei! Era capaz de continuar. No entanto, desde a minha adolescência que a escrita tem — desde que anotava aquelas ideias que, provavelmente, nunca irei utilizar — um papel preponderante na minha vida.

E continuará a ter.

Qual é a tua profissão?

Elisabete Martins de Oliveira

07.05.2021

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

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