O que não nos ensinam na escola?

Todos se queixam do que não aprenderam na escola. Não sei se é coisa da minha geração, mas dou por mim a debater este tema uma e outra vez com pessoas da mesma faixa etária que eu. Conversamos e expressamos incredulidade perante o que ficou por aprender naqueles anos em que devíamos, supostamente, ter-nos preparado para a vida.

Há sempre este sentimento de falta de preparação por parte dos jovens adultos. Eu sinto isto, e não creio ser a única visto este tema ser tão frequente. O sentimento não é de gratidão pelo que aprendemos, mas sim a descrença de que aqueles anos proporcionaram alguma utilidade à nossa vida. Não vou ser radical ao ponto de dizer que as disciplinas não serviram de nada — o que seríamos nós sem as Línguas, as Ciências e a Matemática? No entanto, e creio que isto compõe a opinião geral, muitas das matérias lecionadas não servem absolutamente nenhuma função na nossa vida.

E é aqui que entra o debate: e se, em vez de andarmos a aprender as equações, tivéssemos aprendido sobre cidadania?; e se, em vez de termos tido Formação Cívica, nos tivessem ensinado a fazer o IRS?; e se, em vez de aprendermos as orações em Português, nos tivessem ensinado a procurar emprego e a passar nas entrevistas? As questões desenrolam-se como um rolo de papel higiénico, e a incredulidade junta-se-lhes.

A conclusão a que se chega é a de que saímos da escola (incluindo da universidade) sem saber nada sobre a vida. E isto, para além de incredulidade, gera alguma revolta e até nostalgia. Recordamos o desperdício de horas a estudar temas que em nada contribuíram para o nosso futuro, e imaginamos o que podíamos ter aprendido no seu lugar — já me indaguei sobre o quão teria gostado de aprender sobre como criar um negócio do zero! Contudo, o foco não era esse na altura.

Eu não posso deixar de perceber ambos os lados — o da escola e o dos alunos, futuros adultos. Se por um lado, a escola tem como objetivo dar a conhecer uma área (Geografia, Psicologia, Direito, Matemática Avançada), o objetivo dos alunos é sentirem-se preparados para a vida, quer pessoal, quer profissional. Quem iria adivinhar que, para nos candidatarmos a um emprego, é necessário preparar um currículo e uma carta de apresentação personalizada para as empresas? E como se muda uma fralda? Como é que é suposto sermos pais e mães se não formos preparados para isso?

Ah, mas isso não é responsabilidade da escola…, dirão alguns. Está correto. E também não está. Não nos esqueçamos de que há quem não tenha um bom sistema de apoio familiar. Esta é a realidade de algumas pessoas — a escola será tudo o que têm.

Então, em que ponto ficamos? Será ou não a escola responsável por ensinar estes futuros adultos trabalhadores, pais e mães da próxima geração de alunos? Eu diria que, em parte, sim. Sou apologista de que a escola deveria ensinar competências mais práticas para a vida — sobretudo no Secundário. É um facto, no Ensino Básico nenhum miúdo quer saber do IRS ou sobre como montar um negócio; no entanto, a realidade bate-nos como um pássaro no pára-brisas quando somos forçados a decidir o nosso futuro, no final do Secundário. Apesar disto, as competências práticas deveriam começar cedo — recordo-me de, na Primária, aprender um pouco sobre o trânsito. E ainda hoje me lembro dessas aulas!

Num mundo ideal, teríamos um sistema de suporte que não nos permitisse sentir dificuldades quando entrássemos para o mercado de trabalho, para o mundo real. No entanto, a escola faz o seu melhor para preparar os seus alunos para o futuro. Se podia fazer melhor? Se podia! Ainda há muito a melhorar na preparação dos futuros adultos.

Passar pelas dificuldades também nos ensina muito sobre o mundo e a vida. Perante o desconhecido, somos obrigados a adaptar-nos. A adaptação é uma competência fundamental do ser humano e permite o seu ajuste à sociedade. E, na maioria das vezes, essa adaptação acontece e corre bem. É claro, desejamos sempre saber mais, mas uma parte de ser pessoa passa por aprender a aceitar que não iremos saber tudo em todos os momentos.

É bom aprender coisas na escola — coisas que, por vezes, a família não nos ensina. E acredito que ainda podíamos aprender mais, se nos fosse dada essa oportunidade. A futura geração de alunos beneficiaria imenso com aulas mais práticas, focadas nos mais variados temas da vida, desde o trabalho à vida familiar. A prevenção é, afinal, o melhor antídoto para o desastre! Por outro lado, temos que aceitar que, embora passemos uma porção muito grande de tempo na escola, ela não vai ser a solução para tudo. Em certos momentos, teremos de aprender sozinhos. E está tudo bem!

O que é que a escola não te ensinou?

Elisabete Martins de Oliveira

20.05.2021

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

One thought on “O que não nos ensinam na escola?

  1. É engraçado mas ultimamente tenho dado comigo a pensar nisso. Há tanta coisa que a escola deveria ter ensinado. Há matérias muito mais úteis do que tanta coisa que passamos anos a estudar. É certo que é fundamental sabermos português, matemática (isso é o básico), mas fazia mesmo falta andarmos a estudar equações, daquelas cuja resolução ocupava uma página inteira? Qual a utilidade disso?
    Devíamos ter aprendido cidadania, emoções, sexualidade, matérias como finanças (porque existe muita iliteracia financeira), saber fazer o IRS… Tudo coisas que de repente nos caem nas mãos e não sabemos o que fazer.
    Até no meu curso de Psicologia, e no Mestrado, eu tive disciplinas completamente inúteis que me arruinaram a preparação. O meu Mestrado foi muito fraco em comparação com outros. No estágio curricular, o orientador disse-me mesmo que nós (eu e a minha colega de estágio) não estávamos preparadas. Faz algum sentido tirar um curso de Psicologia e chegar ao fim e não saber sequer como se dá uma consulta?
    E tantas vezes me sinto perdida porque já sou adulta e ainda não sei bem o que ando aqui a fazer. Há fases assim, de grande desânimo. Parece que estou numa delas.
    Gostei muito de refletir com a tua publicação.
    Beijinhos

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