A Missão de Catarina

Catarina não devia ter fugido. Ou, pelo menos, era nisso que pensava enquanto olhava pela janela de um autocarro aos solavancos.

Podia ter continuado na mesma vila, na mesma casa onde cresceu, a ver a vida passar e a fugir-lhe das mãos. Mas não fez. Em vez disso, decidiu partir rumo ao desconhecido.

Sempre quis explorar o mundo — conhecer o compasso de cada língua, a musicalidade das ruas, a essência dos odores florais. E, para o fazer, bastava dar o passo crucial que, antes, temia.

Fugir.

Um homem de bigodes fartos e cabelo desgrenhado mirava-a, de olhos semicerrados e misteriosos. Ela apercebeu-se deste seu estranho gesto, e apertou a mochila contra si.

Pegou no seu livro, O Lado Selvagem, procurando a inspiração e coragem necessárias para continuar aquela viagem. As suas mãos tremiam, a adrenalina condensava-se na pulsação, o coração quase lhe saltava do peito.

Respirou fundo enquanto lia as cartas de Christopher McCandless ao amigo, admirando-lhe a coragem ao ter saído da casa onde cresceu e conhecer pessoas fascinantes durante o percurso. Catarina perguntava-se se também conheceria nómadas ou pessoas como ela, que também queriam fugir da realidade em que viviam.

Os solavancos pararam. Catarina levantou os olhos do livro e olhou em volta, para encontrar a cacofonia de vozes entusiasmadas por terem, por fim, chegado ao seu destino.

Levantou-se de um salto, guardando o livro na mochila. Ao sair do autocarro, deparou-se com a estranheza de um lugar que nunca antes vira — o terreno plano, sem árvores, com ervas e arbustos espalhados por toda a parte, misturando-se com o chão de areia e pedras. Este cenário transportou-a para as férias que fazia com a família, nos verões luminosos mas tensos, repletos de discussões e discórdias familiares.

Mas, desta vez, era diferente. Não havia conflito que soasse no ar e a fizesse sentir atormentada. O odor a maresia povoou as suas narinas, ganhando um novo significado. Inspirou-o, sentindo a frescura nos pulmões, e caminhou sobre a areia e as pedras, que lhe calejavam a sola dos ténis.

As pessoas foram-se dispersando, as vozes cada vez mais distantes, para darem lugar a uma solidão que, embora libertadora, também lhe ofegava a respiração.

— Estás perdida.

A voz atrás de si, rouca como a de um velho cantor, paralisou-a. Rodou sobre os calcanhares para se deparar com o homem que a observava no autocarro. Tinha um chapéu preto sobre os cabelos ondeados e escuros.

— Quem é você?

Ele sorriu — não com um sorriso malicioso, mas sábio. Catarina franziu o sobrolho, contendo o nó que se lhe formava no estômago.

— Tu sabes quem eu sou.

— Não, não sei. — ela apertou as alças da mochila com os dedos; os pés estavam posicionados, prontos para fugir dali.

— Catarina Sampaio, não é esse o teu nome?

Ela arregalou os olhos.

— Como é que sabe?

— Achas que fizeste esta viagem em vão?

Ela detestava quando lhe respondiam com perguntas. Era rude.

— O que é que você quer?

— Tens a resposta diante de ti. — e apontou o queixo na direção do mar.

Catarina temia voltar-se. E se, quando o fizesse, ele se aproximasse, num impulso, e lhe fizesse mal? Contudo, a curiosidade germinava dentro de si como uma bola de fogo — quente, impossível de conter.

Num movimento rápido, olhou para o mar diante de si, e logo se voltou outra vez na direção do homem. Mas ela tinha visto um rasgo de algo imponente. O homem sorriu outra vez. Ele também o tinha visto.

Catarina voltou a olhar para o mar, e deixou o queixo descair perante a beleza e estranheza daquela visão — um galeão, um navio majestoso, o maior que já vira, surgia por entre a neblina. Alguém tocava o sino, uma chamada. A visão envolveu-a de tal forma que sentiu uma tontura.

— Percebes agora?

Quando se voltou para o homem, assustou-se — uma pala cobria-lhe o olho esquerdo, e envergava um longo casaco. Calçava umas botas capazes de resistir a uma tempestade, e mostrava o corpo imponente de um navegador experiente.

— O que é que está a acontecer? — perguntou, na sua voz trémula.

Apercebeu-se que respondeu com uma pergunta. No entanto, não havia espaço para pensar na etiqueta social. Ela queria saber qual o propósito de tudo aquilo.

— Esta é a tua missão, Catarina. — a voz grave do homem parecia sobrepor-se a tudo o resto — Tu irás viajar naquele navio e enfrentar o alto mar. Está no teu sangue.

— Não… — ela só abanava a cabeça. Não podia ser, era impossível!

— Tu sabes o que tens de fazer.

Ela olhou para o homem, ou o pirata, já não sabia bem, e viu-o afastar-se. Atrás dele, a neblina foi-se desvanecendo, descortinando o céu enevoado para dar lugar ao azul tranquilo que ela conhecia.

Mas o mundo já não significava a mesma coisa para si. Desde que embarcara na viagem para fugir da sua realidade que já nada era igual. Mas, em vez de procurar o desconhecido, tinha um propósito — um propósito para a sua jornada.

O pirata afastou-se em direção ao penhasco e desapareceu — ter-se-á desvanecido? Ela não compreendeu, mas não deixou de sentir as pontadas da curiosidade.

Catarina podia sair dali e ignorar tudo o que ele lhe dissera; podia voltar atrás e regressar ao que lhe era familiar. Mas ela sabia que esta era a sua missão. E, embora não tivesse que provar nada ao homem que a olhara com a curiosidade de uma coruja, queria provar a si mesma que era corajosa — de que já não era a miúda tímida da vila que nunca saía da cepa torta. Não. Desta vez, era a Catarina que conseguia provar a todos que era capaz.

Um breve vislumbre do pirata surgiu, quando a neblina começou a levantar — segurando o leme, o homem chamava-a para a aventura de uma vida.

Catarina engoliu em seco quando se aproximou do penhasco. A altura vertiginosa enrijeceu os seus músculos, e a tremura nas mãos regressou.

Esta é a minha missão. — pensou, respirando fundo.

O sino voltou a soar, a chamada para a viagem. Catarina sentiu os seus músculos relaxarem, a sua mente ficou mais leve. Este era o seu momento.

E, com o reflexo da linha azul do horizonte nos olhos, atirou-se do penhasco.


Elisabete Martins de Oliveira

05.06.2021

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

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