A aventura de duas vidas

O medo pode levar-nos ao abismo em três tempos: primeiro, aciona-nos os instintos; depois, põe-nos o coração a bater sem controlo; no fim, trava-nos a razão.

Eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, teria de o fazer. No entanto, a coragem falhava-me no momento em que dava o primeiro passo. Era como se estivesse acorrentada.

Mas, agora, não posso voltar atrás. Não tenho como o fazer.

Olho para baixo, para o quão distante estou do chão, e procuro respirar fundo. Porque é que eu tinha de estar aqui agora? Não podia ter escolhido uma outra altura? Qualquer outra altura?

Dou um passo, e a ponte move-se debaixo dos meus pés. Sinto os meus músculos mais tensos, em resposta. Fecho os olhos, mas, ao contrário do que eu pensava, isso não me acalma. Uma tontura invade-me, e eu agarro-me ao corrimão. Este treme sob a palma da minha mão suada.

A imagem da minha irmã com a cabeça enrolada com ligaduras ainda me atormenta. Ao contrário de mim, a Margarida é corajosa (ou era, antes de ter o acidente).

Inspiro com força e avanço mais uns passos. A altura não ajuda — sempre que olho lá para baixo, debato-me com uma tontura insuportável.

Mas, pela Margarida, eu vou até ao fim do mundo.

Num braço, seguro o pote das suas cinzas. A mochila nas minhas costas chicoteia-me, e só o mais breve movimento me faz estremecer. No entanto, estou a meio!

Uma rajada de vento sacode a ponte. Solto um grito, os músculos paralisados, o olhar alerta. Não acredito que isto está a acontecer agora!

Olho para trás, com o lábio trémulo. Como é que já andei tanto? Nem me dei conta da distância que percorri — das estradas em terra batida, banhadas por pedras escorregadias, por onde andei; das rochas imponentes que subi e desci, e das grandes subidas que calcorreei. Tudo para chegar ao cume. Apenas sei que este era o caminho que a Margarida queria que eu percorresse.

Não posso voltar atrás. Resta-me seguir em frente, e terminar esta viagem. Afinal, este era o último pedido da minha irmã.

Continuo a caminhar sobre a ponte aos solavancos, com a respiração pesada, ofegante. Ela não imagina o quanto fazer isto me custa. Eu sei que o medo é irracional, mas não consigo travá-lo. Cada passo é uma franca tortura. Mal posso esperar que isto acabe.

Olho em volta, para me distrair — o mar ao lado brilha sob as ondas dos raios de sol. Contudo, ao fundo, vejo um manto de neblina levantar-se. Não auguro coisa boa daqui.

Passo a passo, agarro-me ao corrimão com a minha mão livre. A palma da minha mão tem os vincos da força que eu exerço sobre a madeira, mas essa dor escapa-me — nada se compara ao medo de cair daqui.

A neblina começa a adensar-se, e o meu coração dispara, ansioso. Ela sobe, penetrando por entre as cordas que unem as placas de madeira ao corrimão, propagando-se como intrusos.

Paraliso. Como é que é suposto eu continuar se não vejo nada?!

Respiro fundo. Concentro-me na minha respiração, como me aconselha a Dr.ª Vanda. O ar que me entra para os pulmões é frio e húmido. Procuro conforto em qualquer coisa, já que estou prestes a ceder ao medo. Tenho as mãos a tremer. O pote das cinzas escorrega-me do braço, e eu abro os olhos a tempo de o amparar. Quando olho em redor, estou cercada — a neblina apoderou-se de tal forma da ponte que não vejo nada diante ou atrás de mim.

Não, não, não!

Agora é que não posso mesmo continuar — se não vejo por onde vou, como é suposto saber que estou no caminho certo?

A imagem da Margarida, com o seu sorriso contagiante, emoldurado pelas suas rastas louras e olhos da mesma cor avelã que os meus, surge-me na mente. Era a ela a quem eu recorreria num momento de pânico como este.

Volto a respirar fundo três vezes. Cerro os dentes. A situação apavora-me. Mas o que me resta? Não posso, simplesmente, ficar aqui.

Num impulso, caminho com passos determinados, mecânicos. Os meus níveis de ansiedade estão a disparar como foguetes, mas eu não me importo.

É pela Margarida que o faço.

A ponte balança, a neblina arranha-me o rosto com um toque gélido. Os meus olhos, cegos, fitam manchas em tons de branco e cinza.

E, mesmo assim, avanço.

Sinto terra sob mim. A minha respiração acalma. Raspo com eles no chão e as lágrimas brotam dos meus olhos.

Consegui. Consegui!

Subo um caminho semelhante a outros que já subi, o arranhar da areia e das pedras sob as solas dos meus ténis. A neblina vai-se dissipando, como uma cortina que se rasga, e dá lugar ao azul cerúleo que, antes, tive oportunidade de testemunhar.

Chegar ao cume faz a viagem toda valer a pena.

As palavras da Margarida ecoam na minha mente enquanto admiro, as lágrimas a descerem pelo meu rosto, o rebentar das ondas lá em baixo, o contraste entre o azul profundo e a espuma.

Inspiro. É este o momento.

Retiro a tampa do pote. Franzo o sobrolho ao encontrar um pedaço de papel colado a ela, no interior. Desdobro-o:

Querida Cíntia,

Finalmente convenci-te a viver uma aventura! Deves estar exausta — e não só fisicamente!

Sei que não és destas coisas, mas quero que saibas que te estou muito grata. Embora te tenhas sempre achado tímida e incapaz, eu vejo-te como uma pessoa muito forte e com uma coragem admirável. Quando salvaste o nosso primo Sebastião de se afogar, eu percebi que a minha coragem em nada se comparava com a tua. A viagem que acabaste de fazer prova isso mesmo.

Lembra-te, Cíntia, tu és uma mulher de força. Não fujas das aventuras da vida — vive-as!

Adoro-te. Vou ter muitas saudades tuas.

Margarida.

Fico estagnada a mirar a letra trémula da minha irmã, que ela terá escrito enquanto estava no hospital, a tentar recuperar da última vez que andou de asa delta. O vento fustiga os meus cabelos, tornando este momento tão real quanto ele pode ser.

Encosto a carta ao meu peito enquanto os nós na minha garganta se formam. Não é justo. Eu não te devia ter perdido, Margarida. Nunca.

Pego no pote e aproximo-me do penhasco. Engulo em seco, com os olhos a arder. Hesito. Mas era o que tu querias, maninha.

Inclino o pote, e as cinzas caem pelo penhasco, misturando-se no vento, na areia, no mar e na espuma.

Sento-me no chão, a apreciar o eco da rebentação das ondas. Recordo-me de ti, do teu sorriso, e da tua energia. Mal sabes tu que foi na tua coragem que me inspirei em toda a minha vida.

A tua partida quebrou-me. Mas tu pediste-me para vir até aqui e viver a tua aventura, tornando-a minha. Nossa. Tu sabias que eu o faria por ti.

Era a única regra.

Elisabete Martins de Oliveira

11.06.2021

Publicado por

Nascida no dia da Liberdade, trago-a comigo na mente todos os dias. Sou companheira da Natureza, da sua simplicidade e complexidade, e aprecio o seu silêncio e os seus tão magnos sons – especialmente os do Mar. Tenho um encanto pela Música, pela inspiração que me traz para todos os momentos da minha vida. Sou apaixonada por viagens e autocaravanas, e por tudo o que o mundo me pode ensinar. E sou amante da Escrita, aquilo que me define, o mais incrível e deslumbrante modo de vida que consigo conceber.

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